Por que "clepsidro-me"?!?!

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quinta-feira, 29 de abril de 2010

Presente Passado


Ontem estava indo pro trabalho, com o rádio ligado, como de costume.

Muitas vezes me perco em meus pensamentos e nem escuto direito as músicas ou notícias, mas ele está sempre ligado.

Repentinamente uma música me chamou muito a atenção, não sabia identificar quem estava cantando, apesar de já ter ouvido a canção e saber que aquela voz me era familiar.

Era a Isabela Taviani. Fui apresentada a ela pela minha irmã. Na ocasião, quando ouvimos o CD juntas, as músicas da cantora não me disseram muito. Mas ontem eu fiquei grudada na música, talvez por sua letra, da qual gostei muito.

Acho que vou pedir o CD emprestado...


Presente Passado

A essa saudade no meu peito
Esse vazio de você
A esse meu jeito meio feio
De não saber lhe perder

Você foi sem dizer
Onde podia encontrar
Uma razão pra lhe ver
Você podia me deixar
Mas o tempo passou
E essa dor não cessou
Há descaminhos em meus passos
Uma sombra que abraço
Um presente passado
Uma vontade tamanha de não ter mais vontade
Não admiro os covardes
Mas agora é tarde

Ai, o tempo frio que me esquenta
A boca seca que me tenta
Ai, o véu da noite que alumia
É meia noite em meio dia

Você foi sem deixar
A chance de se ver voltar
Uma razão pra esquecer
É o que ficou em seu lugar
Mas o tempo passou
E essa dor não cessou
Há descaminhos em meus passos
Uma sombra que abraço
Um presente passado
Uma vontade tamanha de não ter mais vontade
Não admiro os covardes
Mas agora é tarde





quarta-feira, 28 de abril de 2010

Estou num momento difícil de espera, tenho "uns trem" pra resolver que não dependem de mim. Isso me dá uma angústia enorme. Não lido bem com isso. Por isso escrevo. A angústia é literária.
A felicidade também é. Não concordo com o poema do Vinícius, chamado "A um passarinho", que diz:

"Para que vieste
Na minha janela
Meter o nariz
Se foi por um verso
Não sou mais poeta
Ando tão feliz!"

Pois é, passarinho, se dependesse de meu estado de espírito, deveria compor bons poemas, como o Poetinha, mas não tenho o talento dele.
Portanto resta-me a angústia. E a resignação (em ser paciente e em não ser Poeta).

Se

O futuro é incerto,
isso é certo.

Mas será ele também
promissor
deslumbrado
assustador
emocionante
iluminado
cinza
apaspalhado
apaixonado
silencioso
blue
rabugento
delicado
cismado
solitário
caótico
maravilhoso
barulhento
enamorado
quieto
fantástico

Não sei.
Mas sei que será surpreendente, sempre.
Por isso quero esperá-lo e decobrir todas suas faces.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Doe palavras



No sábado recebi um email muito interessante de uma amiga do Rio.


É sobre uma campanha pra levar mensagens aos pacientes de câncer do Instituto Mário Penna, de Belo Horizonte.


Funciona assim: você entra no site e escreve uma mensagem curta, com cerca de 130 caracteres. A sua mensagem será exibida nas TVs do hospital.

Quem já ficou doente, ou esteve perto de alguém doente, sabe como é importante manter o otimismo, o pensamento positivo e a fé em Deus.

Achei esse um jeito muito criativo e estimulante de usar as chamadas "novas mídias digitais".

Vai lá, doe suas palavras de fé e otismo, não custa nada e você pode fazer um bem enorme a alguém lá em BH!!



Brasiliana

Tempos atrás, escrevi sobre o José Mindlin, lembram? Pois é, volto a ele, ainda que indiretamente.
Como é sabido, num gesto de generosidade, ele e sua esposa doaram seu acervo pra USP.
Outro gesto de generosidade garantiu o acesso digital a alguns livros do Vinícius de Moraes. O desprendimento da família do "Poetinha" tornou possível digitalizar as poesias e disponibilizá-las no site da Biblioteca Brasiliana, que é a versão on line da biblioteca da família Mindlin, doada a USP.
Com isso, nós ganhamos mais uma oportunidade de ler o Vinícius, sem falar nas ilustrações dos livros e nas fotos do poeta.
Realmente vale a pena conferir, não só pelo Vinícius, mas por outros, como o Machado de Assis, o Álvares de Azevedo, a revista modernista Klaxon, o Augusto dos Anjos e mais um montão de coisa que está lá, esperando por nós!
O site da biblioteca é http://www.brasiliana.usp.br/
Espero que gostem.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Palavras



Outro dia, estava almoçando com uns amigos do trabalho e, não me lembro bem do porquê, um deles usou a palavra riquixá. Fiquei tão surpresa!! Nunca havia ouvido essa palavra, somente lido!!

Nesse mesmo dia, outra palavra me surpreendeu pela raridade com que aparece na linguagem oral: vendeta.

Vendeta. Vendeta. Vendeta. Como lhe soa essa palavra? Esqueça seu significado, concentre-se apenas no som. A mim, me parece forte, mas muito sonora. Não sei porque mas gosto do som dessa palavra.

Às vezes o som das palvras me encantam! Lembro quando me deparei com "pineapple", não parava de repetí-la mentalmente.

O mesmo aconteceu com "wunderbar"!! Achei maravilhosa a sonoridade (sem trocadilhos!). Tudo pra mim era "wunderbar"!!! rsrsrs

Quando dou aulas pra estrangeiros faço uma maldadezinha com eles: separo algumas palavras (a maioria adjetivos) que eles desconhecem e peço pra me dizerem se gostam ou não dela, se acham que seu significado é positivo ou negativo e, unicamente pelo som, o que elas poderiam significar.

Claro que na emagadora maioria das vezes eles erram feio, mas isso não importa, pois esse é um exercício de fonética, o que eu quero é que se concentrem no som e aprendam a articulá-lo adequadamente (explico, pra vocês não acharem que eu sou sádica e gosto de promover sessões de tortura durante as aulas!!).

Além de darem boas risadas, os alunos ampliam o vocabulário e treinam sons complicados pra eles! E eu, de quebra, vejo a minha língua por olhos estrangeiros, o que me permite um pouco de reflexão sobre ela. É bem divertido.

terça-feira, 30 de março de 2010

Sentimentos

sentimentos sinuosos
como corpo de mulher
como taça de vinho
como o caminho da pinga no alambique

sentimentos que entorpecem
como corpo de mulher
como taças de vinho
como pinga de alambique

sentimentos aos quais me rendo
como me rendo
ao meu corpo de mulher
às taças tintas de vinho
à pureza da cachaça
a você

sexta-feira, 26 de março de 2010

Clarice


Aos poucos as mulheres vão aparecendo por aqui. A Clarice Lispector é uma autora que não canso de ler, porque me traz sempre surpresas, mesmo depois da milésima leitura.
Seus contos são desconcertantes, muitos deles me marcaram profundamente. Os romances são também desconcertantes, embora mais difíceis e igualmente intrigantes.

Algumas vezes, no meio da leitura de um de seus textos, deparo com uma frase que retrata muito bem o ser humano - suas angústias, seus medos, seus desejos, suas contradições.

A Clarice pra mim, mesmo depois de muito explorada, será sempre um mistério!!

Aliás, o mistério da foto ao lado é o que me seduz. Acho que ela tem um olhar agudo, misterioso e perturbador - igualzinho a seus textos!

Esta manhã, em meio ao tumulto do trabalho, caiu-me nas mãos uma citação da Clarice , com a qual concordo plenamente e até explica um pouco esse blog.

Ei-la:

"Escrever é uma maldição, mas uma maldição que salva. Salva a alma presa, salva a pessoa que se sente inútil, salva o dia que se vive. Escrever é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. É também abençoar uma vida"

terça-feira, 23 de março de 2010

Vazio




O vazio transborda em mim.
O vazio completamente pleno de sua ausência
me faz distender, até quase explodir.
Por que me deixo preencher por ele
se, assim, me esvaio?
Cada vez mais, o vazio preenche.
Cada vez mais, se impõe.
Vou esvaindo-me nele, com desvelo,
num desvario,
num desalinho,
num desatino
que desatina em doer!!

Silêncio

Há silêncio no meu coração.

Não o silêncio
da calmaria da aurora

Não o silêncio
do instante seguinte a uma boa surpresa

Não o silêncio
do sono tranquilo

Não o silêncio
resultado do gozo pleno

Não o silêncio
do deslumbramento

Não o silêncio
do mar sem ondas

Mas o silêncio
da tristeza
da decepção
da dúvida
da melancolia
da perda


O silêncio grita o que eu não quero ouvir

Nevoeiro

Depois de dias ensolarados,
um nevoeiro
caiu sob meus sentimentos
e com ele as perguntas:
onde estou?
fazendo o quê?

Na verdade, o nevoeiro já
estava nas previsões meterológicas.
Nevoeiros, chuviscos,
trovoadas e tempestades,
assim como o sol,
têm seus dias.

O problema é que eu
não gosto deles.
Por isso tendo a ir
pra longe, como ave migratória.

Há terras mais sujeitas
à instabilidade,
às mudanças climáticas.
Outras mais estáveis,
onde o sol brilha com mais constância.

Não me arrependo dos caminhos que escolhi.
Mas também não sei se sou adaptável
a variações tão bruscas, mesmo que anunciadas

Parece que meu El Niño particular chegou

segunda-feira, 22 de março de 2010

Estricnina


Semana passada fui a um show no Memorial da América Latina, que por sinal está fazendo 21 anos. Fui assim, meio que no susto, sem saber muito bem do que se tratava, sabia apenas que era um show do Toquinho e, portanto, não poderia ser ruim.
Mas na verdade era mais que isso: era um show em homenagem ao centenário de nascimento do Adorinan Barbosa.
Eu, talvez por influência de meu pai, sempre achei o Adoniram o máximo!! De uma simplicidade ímpar e de um bom humor inusitado. Adoro o jeito como ele brinca com língua portuguesa.
Talvez o Adoniram seja o único capaz de inserir a quase impronunciável "estricnina" numa música, aliás uma das minhas preferidas, pela sua leveza! Genial!!
Outra surpresa do show foi a participação do Carlinhos Vergueiro, aparição rara, que dá um tempero especial ao caldeirão musical.
Toquinho e Carlinhos foram recheando o caldeirão com músicas ora suaves, ora divertidas, ora comoventes.
Eu, particularmente, me diverti e fiquei comovida com a "Torresmo à milanesa" (tem um pedacinho dela logo abaixo, pra quem não se lembra).
Me diverti pela história que o Carlinhos contou: quando ele e o Adoniran estavam compondo essa música, o Adoniran disse pra trocar o "bife à milanesa", por "torresmo à milanesa". Quando o jovem músico perguntou o por quê da mudança, ouviu: "Por que fica mais triste!" E fica mesmo! Comovente!


Um pouquinho de Adoniram:

O enxadão da obra
bateu onze horas

Vamo se embora, João
Vamo se embora, João
Que é que você troxe
Na marmita, Dito?
Truxe ovo frito
Truxe ovo frito
E você, Beleza,
o que é que você troxe?
Arroz com feijão
E um torresmo à milanesa
Da minha Tereza

(de Torresmo à milanesa)


Tiro ao Álvaro

De tanto levar
Frechada do teu olhar
Meu peito até
Parece sabe o quê?
Táuba de tiro ao Álvaro
Não tem mais onde furar...

Teu olhar mata mais
Que bala de carabina
Que veneno estricnina
Que peixeira de baiano...

Teu olhar mata mais
Que atropelamento
De automóvel
Mata mais
Que bala de revólver...

segunda-feira, 15 de março de 2010

Por que o céu é azul?


O céu é azul porque espelha o mundo...

azul delicado da saudade
azul escuro do ódio
azul marinho da brisa
azul triste da decepção
azul turquesa da fé
azul claro da sinceridade
azul petróleo da ganância
azul calcinha do desejo
azul celeste dos sonhos
azul desbotado dos amores desfeitos
azul cinza da dúvida
azul intenso da felicidade
azul suado do trabalho
azul imprescindível da amizade

azul azul azul

azul inebriante da vida!

Vai, Djavan, corre e diz pro meu benzinho
que o amor é azulzinho...

quinta-feira, 11 de março de 2010


Esses dias andei pensando muito sobre como duas pessoas podem ter opiniões tão diferentes sobre uma mesma coisa. Aí fiquei pensando se havia "a" opinião "certa" e "a" opinião "errada".
Guardando as devidas proporções, não acredito que existe "o" certo e "o" errado. Tudo depende da história de vida, dos conceitos, das necessidades, dos desejos das pessoas.
As pessoas, por natureza, são diferentes. Portanto, é natural que pensem e sintam de forma diferente. O diferente não é melhor nem pior - é apenas diferente. O dificil é aceitar isso, sem valorar ou julgar.
Sabe, só posso ver com os meus olhos e com minha miopia.
Isso me lembra dois textos, um do Rubem Alves e outro do Drummond, ambos transcritos abaixo.


"O que é necessário compreender é que ninguém tem a verdade. Nós só damos palpites. No momento em que os indivíduos compreenderem que suas verdades não passam de palpites eles ficam mais tolerantes. E é gostoso conversar mansamente, cada um ouvindo honestamente o que os outros tem a dizer". (do texto "Nossas verdades são só palpites", do Rubem Alves. Acessível em www.rubemalves.com.br)


A verdade dividida

A porta da verdade estava aberta
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só conseguia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia os seus fogos.
Era dividida em duas metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era perfeitamente bela.
E era preciso optar. Cada um optou
conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

(Carlos Drummond de Andrade, In Contos Plausíveis, José Olympio, 1985)

quarta-feira, 10 de março de 2010

Fragmentos



o dia querendo nascer
olhos fechados para ver os seus
reminiscências da sua mão delicada

pequenas mundanças:
no rádio, música e não notícias
mais atenção às belezas ao redor

um pouco de sono
o dia nascendo exuberante

um pouco de ressaca no coração
pensamentos conflitantes
medo
desejo
euforia

contudo

eta, coração bobo!!