Em uma cena do filme "O jogo da imitação", Alan Turing pergunta a seu amigo:
- O que está lendo?
- É sobre criptografia.
- Tipo mensagens secretas?
- Não são secretas. Essa é a beleza. Mensagens todos veem, mas ninguém entende, a menos que tenha a senha.
- Qual a diferença de falar?
- Falar?
- Quando as pessoas conversam nunca falam o que querem. Dizem outra coisa e esperam que você entenda o que querem dizer. Mas eu nunca entendo. Então, qual a diferença?
- Alan, algo me diz que você será muito bom nisso - diz o amigo, dando o livro sobre criptografia a Alan.
Quando vi a cena, pensei na incomunicabilidade entre as pessoas, ou melhor, no eterno e inútil esforço do homem se comunicar com o outro: somos todos enigmas, para o outro e para nós.
Esse pensamento me levou à Clarice Lispector, a quem esse tema era caro, e, em seguida, à literatura de forma mais ampla. Será a literatura uma espécie de criptografia da alma? Será que nossas almas são criptografadas, sem que tenhamos a senha?
Impossível não lembrar Drummond e seu "Procura da poesia":
"Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível que lhe deres:
Trouxeste a chave?"
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segunda-feira, 11 de janeiro de 2016
quarta-feira, 6 de maio de 2015
Nostalgia
Há muitos anos (uns 20?), eu frequentava uma livraria pertinho da minha casa. Já conhecia o dono e os vendedores, que eram realmente apaixonados por livros e com quem eu adorava conversar - às vezes passava lá só pra falar um oi e dar um dedo de prosa.
Já era da casa: quando eu chegava, eles vinham me cumprimentar e depois me deixavam fuçar as prateleiras à vontade, sem pressão pra comprar, mas sempre com muita disposição pra me ajudar a encontrar o que eu queria. Eu tinha até acesso ao "porão", lugar vetado aos clientes comuns e onde eu passava um bom tempo, remexendo em títulos que ainda não tinham ido para as prateleiras.
E quando tinha novidade de meus autores favoritos (que eles sabiam de cor), lá vinham eles com o livro: "Olha o que chegou. Você vai gostar..."
Sem falar que encontravam tudo quanto é livro que eu queria - era só encomendar e segurar a ansiedade da espera!
Hoje o local é um instituto de depilação, sempre que entro lá e dou de cara com o jardim interno, bate uma nostalgia!!
Ai, que saudades da "minha livraria": do tempo que passava lendo naquele jardim e dos meus amigos de lá.
Já era da casa: quando eu chegava, eles vinham me cumprimentar e depois me deixavam fuçar as prateleiras à vontade, sem pressão pra comprar, mas sempre com muita disposição pra me ajudar a encontrar o que eu queria. Eu tinha até acesso ao "porão", lugar vetado aos clientes comuns e onde eu passava um bom tempo, remexendo em títulos que ainda não tinham ido para as prateleiras.
E quando tinha novidade de meus autores favoritos (que eles sabiam de cor), lá vinham eles com o livro: "Olha o que chegou. Você vai gostar..."
Sem falar que encontravam tudo quanto é livro que eu queria - era só encomendar e segurar a ansiedade da espera!
Hoje o local é um instituto de depilação, sempre que entro lá e dou de cara com o jardim interno, bate uma nostalgia!!
Ai, que saudades da "minha livraria": do tempo que passava lendo naquele jardim e dos meus amigos de lá.
PS: Essas recordações vieram à tona por conta da matéria abaixo:
http://followthecolours.com.br/just-coolt/9-livrarias-independentes-que-voce-precisa-descobrir-em-sp/
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quinta-feira, 31 de julho de 2014
Dia 19 de julho morreu Rubem Alves.
Na ocasião, eu não consegui nem comentar, fiquei imensamente triste. Quando penso, chego até a marejar (eu inteira e não apenas meus olhos).
Ele era um amigo e tanto - não, nunca fui íntima dele, mas isso pouco importa. O que importa é que ele era meu amigo íntimo e me apoiou em muitos dilemas profissionais e pessoais.
Quando mudava de casa, uma das mais importantes providências era marcar a caixa onde estavam seus livros, junto com os de outros amigos, pra qualquer eventualidade - era como ter um remédio mágico/poético sempre à mão.
Ele participou, à revelia, de uma das piores chantagens que me fizeram: faça isso e te levo pra tomar um café com o Rubem Alves! (Nossa, como foi difícil manter minha decisão!).
Nessa hora lembro de outro grande amigo - o Manuel Bandeira - que escreveu um poema sobre o Mário de Andrade.
O poema chama-se "O Mário de Andrade Ausente":
Anunciaram que você morreu.
Meus olhos, meus ouvidos testemunharam:
A alma profunda, não.
Por isso não sinto agora a sua falta.
Sei bem que ela virá
(Pela força persuasiva do tempo).
Virá súbito um dia,
Inadvertida para os demais.
Por exemplo assim:
À mesa conversarão de uma coisa e outra.
Uma palavra lançada à toa
Baterá na franja dos lutos de sangue.
Alguém perguntará em que estou pensando,
Sorrirei sem dizer que em você
Profundamente.
Mas agora não sinto a sua falta.
(É semrpe assim quando o ausente
Partiu sem se despedir:
Você não se despediu.)
Você não morreu: ausentou-se.
Direi: Faz tempo que ele não escreve.
Irei a São Paulo: você não virá ao meu hotel.
Imaginarei: Está na chacrinha de São Roque.
Saberei que não, você ausentou-se. Para outra vida?
A vida é uma só. A sua continua
Na vida que você viveu.
Por isso não sinto agora a sua falta.
#RubemAlves
Na ocasião, eu não consegui nem comentar, fiquei imensamente triste. Quando penso, chego até a marejar (eu inteira e não apenas meus olhos).
Ele era um amigo e tanto - não, nunca fui íntima dele, mas isso pouco importa. O que importa é que ele era meu amigo íntimo e me apoiou em muitos dilemas profissionais e pessoais.
Quando mudava de casa, uma das mais importantes providências era marcar a caixa onde estavam seus livros, junto com os de outros amigos, pra qualquer eventualidade - era como ter um remédio mágico/poético sempre à mão.
Ele participou, à revelia, de uma das piores chantagens que me fizeram: faça isso e te levo pra tomar um café com o Rubem Alves! (Nossa, como foi difícil manter minha decisão!).
Nessa hora lembro de outro grande amigo - o Manuel Bandeira - que escreveu um poema sobre o Mário de Andrade.
O poema chama-se "O Mário de Andrade Ausente":
Anunciaram que você morreu.
Meus olhos, meus ouvidos testemunharam:
A alma profunda, não.
Por isso não sinto agora a sua falta.
Sei bem que ela virá
(Pela força persuasiva do tempo).
Virá súbito um dia,
Inadvertida para os demais.
Por exemplo assim:
À mesa conversarão de uma coisa e outra.
Uma palavra lançada à toa
Baterá na franja dos lutos de sangue.
Alguém perguntará em que estou pensando,
Sorrirei sem dizer que em você
Profundamente.
Mas agora não sinto a sua falta.
(É semrpe assim quando o ausente
Partiu sem se despedir:
Você não se despediu.)
Você não morreu: ausentou-se.
Direi: Faz tempo que ele não escreve.
Irei a São Paulo: você não virá ao meu hotel.
Imaginarei: Está na chacrinha de São Roque.
Saberei que não, você ausentou-se. Para outra vida?
A vida é uma só. A sua continua
Na vida que você viveu.
Por isso não sinto agora a sua falta.
#RubemAlves
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terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
- Escute, senhor inspector: o crime que está sendo cometido aqui não é esse que o senhor anda à procura.
- O que quer dizer com isto?
- Olhe para esses velhos, inspector. Eles todos estão morrendo.
- Faz parte do destino de qualquer um de nós.
- Mas não assim, o senhor entende? Estes velhos não são apenas pessoas.
- São o quê, então?
- São guardiões de um mundo. É todo esse mundo que está sendo morto.
- Desculpe, mas isso, para mim, é filosofia. Eu sou um smples polícia.
- O verdadeiro crime que esta a ser cometido aqui é que estão a matar o antigamente...
- Continuo sem entender.
- Estão a matar as últimas raízes que poderão impedir que fiquemos como o senhor...
- Como eu?
- Sim, senhor inspector. Gente sem história, gente que existe por imitação.
- O que quer dizer com isto?
- Olhe para esses velhos, inspector. Eles todos estão morrendo.
- Faz parte do destino de qualquer um de nós.
- Mas não assim, o senhor entende? Estes velhos não são apenas pessoas.
- São o quê, então?
- São guardiões de um mundo. É todo esse mundo que está sendo morto.
- Desculpe, mas isso, para mim, é filosofia. Eu sou um smples polícia.
- O verdadeiro crime que esta a ser cometido aqui é que estão a matar o antigamente...
- Continuo sem entender.
- Estão a matar as últimas raízes que poderão impedir que fiquemos como o senhor...
- Como eu?
- Sim, senhor inspector. Gente sem história, gente que existe por imitação.
Mia Couto, em A varanda do frangipani
sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
Conforto
"Conforto não é uma poltrona fácil, é um estado de calma, quando o corpo, o olhar, a mente estão em relaxamento.
Quero algo que se encaixe com meu modo de vida, com apenas o necessário para viver e nada mais, onde família e amigos compartilhem o sentimento de se viver em casa."
John Pawson, arquiteto inglês.
Severina - abril/2013
Severina - abril/2013
segunda-feira, 29 de abril de 2013
Histórias
"Bem, talvez a gente seja feliz demais."
"É, pois é, já faz um tempo que eu andava querendo conversar sobre isso com você. Seria muito melhor se você pudesse me fazer um pouco mais infeliz."
"Pare com isso. Estou falando de história. Como nos conto de fadas: 'E eles viveram felizes para sempre' é sempre a última frase."
"Me faz uma gentileza: seja um pouco mais clara."
Ah, você sabia exatamente o que eu queria dizer. Não é que a felicidade fosse insípida É que ela não dava uma boa narrativa. E uma das nossas melhores e maiores distrações, com a velhice, é recitar, não só para os outros, como também para nós mesmos, nossa própria história. Eu sou mestre nisso: fujo da minha história todo dia e ela me persegue como um vira-latas abandonado. Por isso mesmo, um aspecto meu que mudou da juventude para cá é que agora considero as pessoas com pouca ou nenhuma história para contar como tremendamente afortunadas."
Lionel Shriver, In: Precisamos falar sobre o Kevin
"É, pois é, já faz um tempo que eu andava querendo conversar sobre isso com você. Seria muito melhor se você pudesse me fazer um pouco mais infeliz."
"Pare com isso. Estou falando de história. Como nos conto de fadas: 'E eles viveram felizes para sempre' é sempre a última frase."
"Me faz uma gentileza: seja um pouco mais clara."
Ah, você sabia exatamente o que eu queria dizer. Não é que a felicidade fosse insípida É que ela não dava uma boa narrativa. E uma das nossas melhores e maiores distrações, com a velhice, é recitar, não só para os outros, como também para nós mesmos, nossa própria história. Eu sou mestre nisso: fujo da minha história todo dia e ela me persegue como um vira-latas abandonado. Por isso mesmo, um aspecto meu que mudou da juventude para cá é que agora considero as pessoas com pouca ou nenhuma história para contar como tremendamente afortunadas."
Lionel Shriver, In: Precisamos falar sobre o Kevin
Línguas que não sabemos que sabíamos
Num conto que nunca cheguei a publicar acontece o seguinte: uma mulher, em fase terminal de doença, pede ao marido que lhe conte uma história para apaziguar as insuportáveis dores. Mal ele inicia a narração, ela o faz parar:
_ Não, assim não. Eu quero que me fale numa língua desconhecida.
- Desconhecida? - pergunta ele.
- Uma língua que não exista. Que eu preciso tanto de não compreender nada!
O marido se interroga: como se pode saber falar uma língua que não existe? Começa por balbuciar umas palavras estranhas e sente-se ridículo como se a si mesmo desse provas da incapacidade de ser humano. Aos poucos, porém, vai ganhando mais à vontade nesse idioma sem regra. E ele já não sabe se fala, se canta, se reza. Quando se detém, repara que a mulher está adormecida, e mora em seu rosto o mais tranquilo sorriso Mais tarde, ela lhe confessa: aqueles murmúrios lhe trouxeram lembranças de antes de ter memória. E lhe deram o conforto desse mesmo sono que nos liga ao que havia antes de estarmos vivos.
Na nossa infância, todos nós experimentamos este primeiro idioma, o idioma do caos, todos nós usufruímos do momento divino em que nossa vida podia ser todas as vidas e o mundo ainda esperava por um destino James Joyce chamava de "caosmologia" a esta relação com o mundo informe e caótico. Essa relação, meus amigos, é aquilo que faz mover a escrita, qualquer que seja o continente, qualquer que seja a nação, a língua ou o gênero literário.
Mia Conto, no texto Línguas que não sabemos que sabíamos, do livro E se Obama fosse africano.
_ Não, assim não. Eu quero que me fale numa língua desconhecida.
- Desconhecida? - pergunta ele.
- Uma língua que não exista. Que eu preciso tanto de não compreender nada!
O marido se interroga: como se pode saber falar uma língua que não existe? Começa por balbuciar umas palavras estranhas e sente-se ridículo como se a si mesmo desse provas da incapacidade de ser humano. Aos poucos, porém, vai ganhando mais à vontade nesse idioma sem regra. E ele já não sabe se fala, se canta, se reza. Quando se detém, repara que a mulher está adormecida, e mora em seu rosto o mais tranquilo sorriso Mais tarde, ela lhe confessa: aqueles murmúrios lhe trouxeram lembranças de antes de ter memória. E lhe deram o conforto desse mesmo sono que nos liga ao que havia antes de estarmos vivos.
Na nossa infância, todos nós experimentamos este primeiro idioma, o idioma do caos, todos nós usufruímos do momento divino em que nossa vida podia ser todas as vidas e o mundo ainda esperava por um destino James Joyce chamava de "caosmologia" a esta relação com o mundo informe e caótico. Essa relação, meus amigos, é aquilo que faz mover a escrita, qualquer que seja o continente, qualquer que seja a nação, a língua ou o gênero literário.
Mia Conto, no texto Línguas que não sabemos que sabíamos, do livro E se Obama fosse africano.
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
Cicatrizes
"Nas pernas escuras da moça havia muitas cicatrizes brancas pequeninas. E pensei: Será que essas cicatrizes estão no seu corpo inteiro, como as luas e estrelas no seu vestido? Achei que isso também seria bonito, e peço-lhe neste instante que faça o favor de concordar comigo que uma cicatriz nunca é feia. Isto é o que aqueles que produzem as cicatrizes querem que pensemos. Mas você e eu temos de fazer um acordo e desafiá-los. Temos de ver todas as cicatrizes como algo belo. Combinado?"
(da página 17, do livro "Pequena Abelha", de Chris Cleave)
"O vento soprou no sári amarelo e vi uma cicatriz na garganta dela, de um lado a outro, grossa como um dedo mindinho. Branca igual a um osso na pele escura dela. Encalombada e enrolada em torno da traqueia dela como se não quisesse soltá-la. Como se achasse que ainda tinha chance de acabar com ela. Ela me viu olhando e escondeu a cicatriz com a mão, e aí olhei para a mão. Havia cicatrizes na mão também. Combinamos aquilo sobre cicatrizes, eu sei, mas dessa vez desviei o olhar porque às vezes a beleza é demais."
(da página 66, do livro "Pequena Abelha", de Chris Cleave)
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
Nelson Rodrigues
Portanto, acabamos de comemorar 100 anos do nascimento desse menino que via o mundo pelo buraco da fechadura.
Dono de um humor ácido e de inúmeras frases sensacionais e polêmicas, o escritor e dramaturgo foi homenageado, pelo Itaú Cultural, com uma exposição, a qual visitei. Abaixo vocês têm uma pequena degustação:
PS: Pra quem gostou das frases, sugiro a leitura do Flor de Obsessão, livro no qual o Ruy Castro reuniu as "mil melhores frases" de Nelson Rodrigues.
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sexta-feira, 14 de setembro de 2012
Mentiras
Esses dias estava lendo um livro que está na estante há alguns meses. Ele é composto por pequenos textos, independentes entre si. É como seu autor diz: "Assim é esse livro, sem princípio, sem meio, sem fim. Um álbum de fotografias em que cada fotografia vale por si mesma." Como estou sem tempo nenhum para ler, mas não posso deixar de alimentar meu vício, esse é o livro ideal pra mim.
Reproduzo abaixo um dos textos que achei bem pertinente para o momento em que estamos vivendo, chama-se "Novo slogan político":
Alguém escreveu num muro branco da Universidade do Porto, em Portugal, a sua exigência política: "Queremos mentira novas!". Quem o escreveu sabia das coisas. Sabia que era inútil pedir o impossível: "Basta de mentiras!". Na política, apenas as mentiras são possíveis. Mas ele já estava cansado das mentiras velhas, batidas, como piadas cujo fim já se conhece, que diariamente aparece nos jornais. Mentiras velhas são um desrespeito à inteligência daquelas a que são dirigidas. Que mintam, mas que respeitem a minha inteligência! Mintam usando a imaginação! Por isso escrevia, em nome da inteligência, do possível e do humor: "Queremos mentiras novas!" (Ostra feliz não faz pérolas, Rubem Alves)
Claro que quando li isso, pensei imediatamente nas eleições municipais que estão sendo disputadas em todo o País. Mas agora, ao digitar o texto, me dei conta de que nós também mentimos as mesmas mentiras por milênios: mentimos para os outros e mentimos para nós mesmos. Acho que a avassaladora maioria não mente porque é mau caráter, talvez nem perceba que está mentindo. Mas isso não transforma a mentira em verdade.
Daí pensei: quais mentiras preciso parar de contar, aos outros, e, especialmente, a mim mesma?!?! Em quais mentiras preciso deixar de acreditar?
Eu, ao contrário do pichador português, quero o impossível (e, pasmem, muitas vezes consigo!!)
Reproduzo abaixo um dos textos que achei bem pertinente para o momento em que estamos vivendo, chama-se "Novo slogan político":
Alguém escreveu num muro branco da Universidade do Porto, em Portugal, a sua exigência política: "Queremos mentira novas!". Quem o escreveu sabia das coisas. Sabia que era inútil pedir o impossível: "Basta de mentiras!". Na política, apenas as mentiras são possíveis. Mas ele já estava cansado das mentiras velhas, batidas, como piadas cujo fim já se conhece, que diariamente aparece nos jornais. Mentiras velhas são um desrespeito à inteligência daquelas a que são dirigidas. Que mintam, mas que respeitem a minha inteligência! Mintam usando a imaginação! Por isso escrevia, em nome da inteligência, do possível e do humor: "Queremos mentiras novas!" (Ostra feliz não faz pérolas, Rubem Alves)
Claro que quando li isso, pensei imediatamente nas eleições municipais que estão sendo disputadas em todo o País. Mas agora, ao digitar o texto, me dei conta de que nós também mentimos as mesmas mentiras por milênios: mentimos para os outros e mentimos para nós mesmos. Acho que a avassaladora maioria não mente porque é mau caráter, talvez nem perceba que está mentindo. Mas isso não transforma a mentira em verdade.
Daí pensei: quais mentiras preciso parar de contar, aos outros, e, especialmente, a mim mesma?!?! Em quais mentiras preciso deixar de acreditar?
Eu, ao contrário do pichador português, quero o impossível (e, pasmem, muitas vezes consigo!!)
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segunda-feira, 27 de agosto de 2012
Li hoje, com certo atraso, a coluna do Contardo Calligaris de quinta-feira, dia 16/08, e não posso deixar sem registro uma frase com a qual concordo inteiramente:
PS: O texto foi escrito por ocasião do Dia dos Pais e, creio eu, ser por isso que ele se refere apenas a pais, mas a frase bem pode ser estendida a qualquer que se entregue a tarefa de educar.
"Educar implica o risco de ser detestado - risco que um pai deve correr sem hesitação".
PS: O texto foi escrito por ocasião do Dia dos Pais e, creio eu, ser por isso que ele se refere apenas a pais, mas a frase bem pode ser estendida a qualquer que se entregue a tarefa de educar.
terça-feira, 7 de agosto de 2012
"Este segundo pensamento lhe ocorria sobretudo à noite, no emaranhado caótico de imagens que precede o sono, quando a mente está demasiado debilitada para contar mentiras a si mesma"
A solidão dos números primos, de Paolo Giordano
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terça-feira, 31 de julho de 2012
“Palavras são, na minha nada humilde opinião, nossa inesgotável fonte de magia.
Capazes de causar grandes sofrimentos, e também de remediá-los.”
Alvo Dumbledore, diretor emérito da Escola de Bruxaria de Hogwarts
Harry Potter - J. K. Rowling
Não sou fã da série Harry Potter, vi só um filme e não li nenhum livro, mas várias pessoas já me disseram que deveria assistir aos filmes. Estão na lista de filmes, livros e lugares para degustar.
Então, se não sou fã, por que postei essa frase? Porque concordo com ela. Um amigo ma enviou ("ma enviou" é ataque de frescurice, mas vá lá) por email, cujo título era "sobre suas amigas, as palavras".
Concordo que as palavras são minhas amigas porque nelas sempre encontro refrigério, como se fossem um ombro amigo ou o colo de minha irmã. E porque sinto enorme prazer na companhia delas, especialmente quando escritas.
Dia desses estava dizendo que precisava "prazeirar" minha vida. Agora, escrevendo este post, me dei conta de que faz tempo que não leio nada arrebatador - os últimos livros têm sido raros e mornos.
Mas certamente isso vai mudar, vou resgatar velhos amigos, cuja leitura é sempre prazerosa.
quarta-feira, 20 de junho de 2012
Amizades líquidas ou porque meus amigos não são os do Facebook
Se você é meu amigo do Facebook (FB) e se ofendeu com título deste post, peço duas coisas: primeiro, sinceras desculpas, não pretendia ofendê-lo. Segundo, que leia este texto até o fim para que compreenda minha afirmação e, assim, quem sabe, me perdoe.
Em minha defesa tenho a dizer que meus amigos “de verdade” (reais, dos quais eu conheço o rosto, a voz, as qualidades e os defeitos) também estão na lista de “amigos” virtuais. Contudo o inverso não é verdadeiro.
Antigamente, fazíamos uma distinção clara entre “colegas” e “amigos”. Colega era aquele com quem se mantinha uma relação superficial. Já amigo era uma pessoa próxima, que frequentava sua casa e com quem você mantinha uma relação de companheirismo. Quando morei no Rio de Janeiro, brincava com os cariocas que eles poderiam se considerar amigo de um paulista quando fossem convidados para ir a casa dele.
Andei pensando essas coisas desde que entrei nas redes sociais, mas nunca parei para refletir sobre elas como o fiz nesses últimos tempos. Se você acompanha meu Facebook pode achá-lo meio desinteressante porque não posto lá muitas coisas: nunca tive vontade de compartilhar minha dor de dente, meu presente dos Dias dos Namorados ou minhas fotos do churrasco de domingo.
Não compartilho muitas coisas porque não consigo entender o interesse que despertariam nos outros (a menos que seja um interesse impertinente e despropositado pela vida alheia) e outras não são postadas porque devem ser compartilhadas com pessoas especiais e não com o “planeta”.
E por que essas questões resolveram me assaltar ultimamente? Por que comecei a ler um livro - Gadget: você não é um aplicativo - que questiona, entre outras coisas, o papel do indivíduo no mundo digital e afirma que os indivíduos estão cada vez mais despersonalizados.
Isso me fez lembrar do Bauman, que diz que hoje temos uma vida líquida, na qual a volatilidade das relações é um imperativo. As relações afetivas são um espelho disso; e os “colegas” do FB, um exemplo contumaz.
Hoje é muito comum termos muitos “colegas” no FB, que ingenuamente chamamos de amigos. A noção de amizade está cada vez mais líquida...
E o que Bauman quer dizer com esse termo? Ele opõe o termo a “sólido”. Para o sólido é mais difícil conformar-se (assumir uma forma que não é a sua). Por outro lado, o líquido, além de se amoldar com muita facilidade, derrama-se por todo o espaço, mas não se apropria dele.
Sob esse aspecto, as amizades virtuais são bastante líquidas. Na minha “time line” passam com muita fluidez meus “amigos” que, assim como a água, me escapam. Suas histórias são rapidamente substituídas sem que eu tenha tempo de assimilá-las, de sedimentá-las. Elas são prontamente “consumidas” e substituídas, conforme a rapidez que a sociedade de consumo exige. Nós “fingimos” participar da vida de nossos “amigos” e compartilhar suas histórias, aderindo à lógica do simulacro, tão bem discutida por Baudrillard.
Na sociedade de liquidez, simulacro e consumo, o “eu” se despersonaliza e, consequentemente, pasteuriza sua relação com o outro.
Entendeu agora porque faço questão de diferenciar os amigos? Amigo é valioso demais para se deixar evaporar...
PS: Esse texto foi produzido para a avaliação final de uma das disciplinas de meu curso de pós sobre Mídias Digitais.
segunda-feira, 11 de junho de 2012
Casamento
Por conta de um vídeo postado no Facebook, essses dias estava "discutindo" com uns amigos - a maioria músicos - sobre a mulher fazer a base pros namorados músicos. Claro que a discussão caiu no tema "machismo" (base, no jargão musical é cozinha). Muitos comentários a respeito: alguns indignados e outros de apoio.
Como disse lá no Face, acho essa discussão meio ultrapassada. Será que a gente não aprendeu ainda que nas relações, inclusive as amorosas, cada hora um faz a base pro outro? Se eu não apoiar as pessoas a quem amo e não receber apoio delas, de que serve a relação? Só pra horas boas? Isso me parece bem superficial. Já diz lá em Eclesiastes 4: "Melhor é serem dois do que um, porque se um cair, o outro levanta o seu companheiro; mas ai do que estiver só; pois, caindo, não haverá outro que o levante."
Esse papo de machismo e feminismo me fez lembrar de um poema belíssimo da Adélia Prado, cujo título é Casamento.
Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.
Acho esse texto lindíssimo pela cumplicidade do casal nas coisas simples do dia a dia. Na minha opinião, esse é o grande segredo de todo relacionamento.
E, a menos que eu esteja vendo coisas, esse é um texto de uma sensualidade penetrante, o que me leva a crer que a cumplicidade faz espocar o erotismo...
PS: o Aurélio traz como sentido figurado de espocar: desabotoar impetuosamente. Sugestivo, não? ;)
PS: Texto extraído do livro "Adélia Prado - Poesia Reunida", Ed. Siciliano - São Paulo, 1991, pág. 252.
Como disse lá no Face, acho essa discussão meio ultrapassada. Será que a gente não aprendeu ainda que nas relações, inclusive as amorosas, cada hora um faz a base pro outro? Se eu não apoiar as pessoas a quem amo e não receber apoio delas, de que serve a relação? Só pra horas boas? Isso me parece bem superficial. Já diz lá em Eclesiastes 4: "Melhor é serem dois do que um, porque se um cair, o outro levanta o seu companheiro; mas ai do que estiver só; pois, caindo, não haverá outro que o levante."
Esse papo de machismo e feminismo me fez lembrar de um poema belíssimo da Adélia Prado, cujo título é Casamento.
Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.
Acho esse texto lindíssimo pela cumplicidade do casal nas coisas simples do dia a dia. Na minha opinião, esse é o grande segredo de todo relacionamento.
E, a menos que eu esteja vendo coisas, esse é um texto de uma sensualidade penetrante, o que me leva a crer que a cumplicidade faz espocar o erotismo...
PS: o Aurélio traz como sentido figurado de espocar: desabotoar impetuosamente. Sugestivo, não? ;)
PS: Texto extraído do livro "Adélia Prado - Poesia Reunida", Ed. Siciliano - São Paulo, 1991, pág. 252.
quarta-feira, 30 de maio de 2012
Viagens
Estou sentindo falta de escrever... E de ler. Não tenho conseguido fazer duas das coisas que mais gosto: ler literatura e escrever no blog. É como se ficasse um buraco no meu dia. As palavras me alimentam - ando em jejum ultimamente...
Em compensação tenho ido mais ao cinema. Tenho visto muita coisa boa e também muita coisa ruim. Aliás, tem um filme que está com 500 estrelinhas na cotação da crítica que me desgradou muito. Baseado em um livro de um escritor bem famoso, achei o roteiro inconsistente. Tarefa ingrata a adaptação de livro pra filme - normalmente fica a desejar (execeção feita ao A insustentável leveza de ser, do qual já falei aqui).
Um dos filmes dessa nova safra de que mais gostei foi "Uma longa viagem", com direção da Lúcia Murat e protagonizado pelo Caio Blat. Gostei da condução do filme, da atuação do Caio, da trilha, das experimentações, sem falar da fascinação que sinto pelo período em que a história acontece: a ditadura militar. Acho comovente a vontade de mudar o mundo (tenho um amigo que diz que eu quero consertar o mundo... talvez venha daí minha atração pela época em que se acreditava que isso era possível...).
O filme trata da trajetória da diretora e de seus dois irmãos, na década de 70. Seu irmão caçula foi enviado a Londres para não seguir os passos políticos da irmã, que havia se envolvido na luta armada. O fio condutor do filme é a intensa correspondência que ele troca com a família, durante os 9 anos em que passa viajando pelo mundo. A narrativa é entrecortada por entrevistas, feitas por Lúcia, ao irmão Heitor, o que nos dá ensejo de saber o que ele não contava nas cartas.
Enquanto Heitor viajava pelo mundo, a irmã era mantida na prisão. Anos depois, devido a carreira de cineasta, Lúcia visita os lugares por onde seu irmão passou. No filme tem uma frase ótima dela, que é mais ou menos assim: Eu e meu irmão nos encontramos no espaço, mas não no tempo.
E o outro irmão de Lúcia? Bem, ele é a razão do filme. Na verdade sua morte é o que leva a cineasta a recompor a trajetória dos três irmãos. No site, o filme é definido como "um documentário que trabalha sobre a memória, não só pela forma como é feita a investigação, mas também sobre o motivo do filme: a morte do terceiro irmão."
Mas não é um filme triste sobre morte, pelo contrário é um filme cheio de vida e sobre as inúmeras possibilidades que ela nos abre. É um filme sobre amizade, laços familiares, dor, liberdade, idealismo, loucura, política, memória...
É um filme sobre muitas coisas, principalmente sobre o ser humano.
PS: A foto foi retirada do site do filme, que vale uma visita:
http://www.taigafilmes.com/longaviagem/index.htm
PS': Como é bom quebrar o jejum e me alimentar das palavras escritas. Agora só falta ser fisgada pelo próximo livro...
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quarta-feira, 9 de maio de 2012
terça-feira, 17 de abril de 2012
Paz e silêncio
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