Em uma cena do filme "O jogo da imitação", Alan Turing pergunta a seu amigo:
- O que está lendo?
- É sobre criptografia.
- Tipo mensagens secretas?
- Não são secretas. Essa é a beleza. Mensagens todos veem, mas ninguém entende, a menos que tenha a senha.
- Qual a diferença de falar?
- Falar?
- Quando as pessoas conversam nunca falam o que querem. Dizem outra coisa e esperam que você entenda o que querem dizer. Mas eu nunca entendo. Então, qual a diferença?
- Alan, algo me diz que você será muito bom nisso - diz o amigo, dando o livro sobre criptografia a Alan.
Quando vi a cena, pensei na incomunicabilidade entre as pessoas, ou melhor, no eterno e inútil esforço do homem se comunicar com o outro: somos todos enigmas, para o outro e para nós.
Esse pensamento me levou à Clarice Lispector, a quem esse tema era caro, e, em seguida, à literatura de forma mais ampla. Será a literatura uma espécie de criptografia da alma? Será que nossas almas são criptografadas, sem que tenhamos a senha?
Impossível não lembrar Drummond e seu "Procura da poesia":
"Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível que lhe deres:
Trouxeste a chave?"
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segunda-feira, 11 de janeiro de 2016
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
terça-feira, 9 de outubro de 2012
O gato do rabino
Fui ver esse filme sensacional sobre um gato que passa a falar depois de engolir o papagaio do rabino. A animação é ótima, o traço do desenhista, muito bom (estou até pensando em comprar o HQ) e o filme, repleto de cor.
Gostei especialmente porque o gato, de um humor refinado e um pouco ácido, nos faz refletir sobre nossas crenças - religiosas ou não. Temas como tolerância e amizade são tratados de uma forma inteligente e, às vezes, sarcástica.
Do filme, anotei duas frases para pensar:
"Você dá nome científico às coisas e acha que entendeu."
"Os pequenos detalhes mostram a extensão do que não sabemos."
Vi o filme na sexta e ainda continuo pensando nas frases.
Gosto disso.
quarta-feira, 30 de maio de 2012
Viagens
Estou sentindo falta de escrever... E de ler. Não tenho conseguido fazer duas das coisas que mais gosto: ler literatura e escrever no blog. É como se ficasse um buraco no meu dia. As palavras me alimentam - ando em jejum ultimamente...
Em compensação tenho ido mais ao cinema. Tenho visto muita coisa boa e também muita coisa ruim. Aliás, tem um filme que está com 500 estrelinhas na cotação da crítica que me desgradou muito. Baseado em um livro de um escritor bem famoso, achei o roteiro inconsistente. Tarefa ingrata a adaptação de livro pra filme - normalmente fica a desejar (execeção feita ao A insustentável leveza de ser, do qual já falei aqui).
Um dos filmes dessa nova safra de que mais gostei foi "Uma longa viagem", com direção da Lúcia Murat e protagonizado pelo Caio Blat. Gostei da condução do filme, da atuação do Caio, da trilha, das experimentações, sem falar da fascinação que sinto pelo período em que a história acontece: a ditadura militar. Acho comovente a vontade de mudar o mundo (tenho um amigo que diz que eu quero consertar o mundo... talvez venha daí minha atração pela época em que se acreditava que isso era possível...).
O filme trata da trajetória da diretora e de seus dois irmãos, na década de 70. Seu irmão caçula foi enviado a Londres para não seguir os passos políticos da irmã, que havia se envolvido na luta armada. O fio condutor do filme é a intensa correspondência que ele troca com a família, durante os 9 anos em que passa viajando pelo mundo. A narrativa é entrecortada por entrevistas, feitas por Lúcia, ao irmão Heitor, o que nos dá ensejo de saber o que ele não contava nas cartas.
Enquanto Heitor viajava pelo mundo, a irmã era mantida na prisão. Anos depois, devido a carreira de cineasta, Lúcia visita os lugares por onde seu irmão passou. No filme tem uma frase ótima dela, que é mais ou menos assim: Eu e meu irmão nos encontramos no espaço, mas não no tempo.
E o outro irmão de Lúcia? Bem, ele é a razão do filme. Na verdade sua morte é o que leva a cineasta a recompor a trajetória dos três irmãos. No site, o filme é definido como "um documentário que trabalha sobre a memória, não só pela forma como é feita a investigação, mas também sobre o motivo do filme: a morte do terceiro irmão."
Mas não é um filme triste sobre morte, pelo contrário é um filme cheio de vida e sobre as inúmeras possibilidades que ela nos abre. É um filme sobre amizade, laços familiares, dor, liberdade, idealismo, loucura, política, memória...
É um filme sobre muitas coisas, principalmente sobre o ser humano.
PS: A foto foi retirada do site do filme, que vale uma visita:
http://www.taigafilmes.com/longaviagem/index.htm
PS': Como é bom quebrar o jejum e me alimentar das palavras escritas. Agora só falta ser fisgada pelo próximo livro...
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sexta-feira, 13 de abril de 2012
Heleno de Freitas


Todos sabem que gosto muito de futebol, embora não esteja tendo muito tempo de acompanhar os jogos. Ontem meu chefe me atualizou sobre a Libertadores - quem diria, ele, que não gosta de futebol, me contando como foi a rodada, a mim que antigamente assistia a XV de Piracicaba e São Bento de Sorocaba!!
Sou alvinegra, aqui com o Corinthians e no Rio com o Botafogo. Sou fiel à clássica combinação do preto e branco! Chiquérrima!!
Por conta dessa paixão, dia desses fui ver o filme Heleno, sobre um dos maiores craques do Botafogo. Confesso que não o conhecia. Minhas paixões no Fogão são o Garrincha e o Túlio Maravilha. Mas também gosto muito do Gérson, Nilton Santos, Didi e Amarildo (substituto do Pelé na Copa de 62).
Sou alvinegra, aqui com o Corinthians e no Rio com o Botafogo. Sou fiel à clássica combinação do preto e branco! Chiquérrima!!
Por conta dessa paixão, dia desses fui ver o filme Heleno, sobre um dos maiores craques do Botafogo. Confesso que não o conhecia. Minhas paixões no Fogão são o Garrincha e o Túlio Maravilha. Mas também gosto muito do Gérson, Nilton Santos, Didi e Amarildo (substituto do Pelé na Copa de 62).
Gostei muito do filme, apesar de ser extremamente triste. Mas o que eu mais gostei foi da atuação do Rodrigo Santoro, que faz o personagem do título. Já havia visto outros filmes dele e tinha gostado. Ele é um grande ator.
Gosto especialmente da forma como ele se entrega ao personagem, sem nenhuma vaidade. Nesse filme ele está irreconhecível. Na primeira cena do filme, que é em flash back, vemos o Heleno no final da vida. Quando a cena rodou, pensei: Ué, não era o Santoro que fazia esse papel? Isso mesmo, no primeiro momento duvidei de que estava vendo o Rodrigo Santoro. Fantástico!! Isso é entrega, seriedade e profundidade no trabalho como ator.
Me emocionei muito com a história de Heleno e com a entrega de Rodrigo.
Depois do filme, mais dois nomes foram incluídos na lista de minhas paixões: Heleno de Freitas e Rodrigo Santoro - ambos emocionadores.
Depois do filme, mais dois nomes foram incluídos na lista de minhas paixões: Heleno de Freitas e Rodrigo Santoro - ambos emocionadores.
PS: não sei se a palavra "emocionador" existe, mas no meu dicionário particular significa aquele que provoca emoção forte.
PS': ao que parece Santoro é vascaíno.
segunda-feira, 25 de julho de 2011
Filmes no fim de semana

Sábado fui ao cinema, acabei me empolgando e assisti a dois filmes - só não vi o terceiro porque os horários das sessões eram incompatíves. Tinha tempo que não fazia isso!!
Foram dois filmes com o Gérard Depardieu, que como sempre estava maravilhoso!
O primeiro foi o "Minhas Tardes com Margueritte", que quase me fez chorar no final. Mas não pensem que o filme é triste. Na verdade, ele tem lá seus momentos de tristeza, mas são muito bem suavizados pelo jeito bonachão do personagem principal, Germain.
O filme trata da amizade entre Germain (G. Depardieu) e Margueritte (Gisele Casadesus), uma simpática senhorinha. O que une os dois? Livros!
A doce Margueritte é uma apaixonada por livros e acaba seduzindo Germain, um boa praça meio brucutu, com suas leituras. Sedução no sentido mais puro que existe, o afeto entre eles é sincero e inocente.
O que Germain encontra em Margueritte é o que não encontra em sua mãe, com quem tem uma relação bastante tumultuada, desde a infância.
O filme tem cenas muitos tristes, como as humilhações sofridas por Germain, outras muito doces, como as belas palavras que ele diz a namorada após terem feito amor, e outras muito engraçadas, como a que ele devolve o dicionário com que Margueritte o havia presenteado porque não concordava com suas definições.
O outro filme foi "Potiche", com Depardieu e Catherine Deneuve, que está ótima. Essa história gira em torno da dona de casa que, por questões circunstanciais, assume a presidência da fábrica da família, inesperadamente se dá muito bem na empreitada e toma gosto pela coisa. Um filme que trata de coisas muito sérias de uma maneira leve e divertida. As relações familiares e sociais são expostas e, com elas, a hipocrisia da sociedade.
O filme de Ozon, embora muito diferente, me fez lembrar do Gil Vicente, que usava suas peças para expor a sociedade da época e tentar "educá-la".
Ozon ambienta seu filme no final da década de 70, mas temos a impressão de que a história e as questões que ela levanta são atualíssimas! Talvez esse seja o motivo de acharmos tão engraçadas algumas situações.
terça-feira, 26 de abril de 2011
François Truffaut, uma autobiografia

Ontem assisti, na TV Cultura, ao documentário "François Truffaut, uma autobiografia", de Anne Andreu, produzido em 2004.
Eu adoro o Truffaut, aliás já escrevi sobre ele aqui. O documentário é bárbaro e dá um excelente panorama da obra do cineasta, com imagens dos sets de filmagens, entrevistas, depoimentos de diretores, atrizes e assistentes.
Fiquei com vontade de rever alguns filmes e ver outros que desconhecia até então, como "A sereia do Mississipi", considerado o mais hitchcockiano do Truffaut.
Segundo o cineasta, todo filme é sobre sentimento. Nunca havia pensado dessa forma e fiquei aturdida quando o ouvi dizer isso. Mas não é que ele tem razão!! Genial, mais uma vez!!
Outra coisa genial que ouvi dele foi: "A vida é por definição provisória (...) E nossa afetividade pede o infinito".
Que frase bonita!! De uma beleza um pouco melancólica, mas sem dúvida muito bonita e delicada. Por essas e outras que eu adoro o Truffaut!!
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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Shirley Valentine
Essa semana assiste a dois filmes, um deles foi Shirley Valentine.
Adorei a versão cinematográfica da peça de Willy Russell, dirigida por Lewis Gilbert e protagonizada por Pauline Collins.
O filme não é novo, é de 1989, mas proporciona uma visão bem atual do ser humano e das relações familiares.
Eis algumas falas:
"Por que ter toda uma vida, se não fazemos proveito dela? Por que todos esses sentimentos e sonhos e esperanças, se nunca os usamos?"
"Sonhos. Eles nunca estão onde você espera encontrá-los"
"Eu não me apaixonei por ele. Me apaixonei pela ideia de viver"
A paixão pela vida tem que ser constantemente renovada, senão corre o risco de morrer, como nos lembra Shirley Valentine.
Adorei a versão cinematográfica da peça de Willy Russell, dirigida por Lewis Gilbert e protagonizada por Pauline Collins.
O filme não é novo, é de 1989, mas proporciona uma visão bem atual do ser humano e das relações familiares.
Eis algumas falas:
"Por que ter toda uma vida, se não fazemos proveito dela? Por que todos esses sentimentos e sonhos e esperanças, se nunca os usamos?"
"Sonhos. Eles nunca estão onde você espera encontrá-los"
"Eu não me apaixonei por ele. Me apaixonei pela ideia de viver"
A paixão pela vida tem que ser constantemente renovada, senão corre o risco de morrer, como nos lembra Shirley Valentine.
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
Truffaut
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
A insustentável leveza de ser
Ontem revi o filme do Phillip Kaufman, baseado no romance do Kundera - A insustentável leveza de ser, que já havia mencionado aqui.
Tinha me esquecido como é bonito!! Novamente me emocionei com o filme!!
Enquanto assistia, algumas palavras e imagens flutuavam entre mim e a tela:
confiança
dddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddd desejo
rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr repressão
PS: se você não entendeu o "meu chapéu", leia a postagem sobre o Kundera.
Tinha me esquecido como é bonito!! Novamente me emocionei com o filme!!
Enquanto assistia, algumas palavras e imagens flutuavam entre mim e a tela:
confiança
sensualidade
força bruta
amor
política
DDDDDDDDDDDDDddddddddddddddddddddddddddddddddDDDD felicidade
liberdade sssssssssssssssssssss sofrimento
leveza eeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeescolhasprazer
SSSSSSSSSSSSSSSSSS sonhodddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddd desejo
primavera de Praga (e tudo o que isso implica)
belezarrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr repressão
covardia
luta
o "meu chapéu"!!
PS: se você não entendeu o "meu chapéu", leia a postagem sobre o Kundera.
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quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Kundera

Ontem à noite, iniciei a leitura do "A valsa dos adeuses", do escritor tcheco Milan Kundera.
Conheci o Kundera pelo cinema: no final da década de 80 assisti à adaptação do seu livro "A insustentável leveza do ser", com o Daniel Day-Lewis, Juliette Binoche e Lena Olin. Me apaixonei pela história e por esses personagens e então li esse e outros livros dele.
Lembro bem de uma cena do filme em que dois personagens brincavam com um chapéu. Além de linda, sensual e delicadíssima, a cena trazia um chapéu exatamente igual ao que havia acabado de ganhar de presente para integrar-se à minha, então tímida, coleção de chapéus.
Filme especial, presente especialíssimo de alguém muito amado. O presente, de tão lindo, foi roubado em uma festa por pura distração minha, mas a pessoa que mo deu ainda permanece intacta em meus sentimentos.
No livro que estou lendo agora, encontrei uma frase que me surpreendeu pela obviedade e, simultaneamente, pelo inusitado (aliás com o Kundera esse sentimento é recorrente). Aí vai ela:
"O ciúme possui o poder espantoso de iluminar o ser amado com raios intensos e de manter a multidão dos outros homens numa total obscuridade."
Aliás, no filme isso é muito verdadeiro no comportamento da personagem Tereza, que ilumina Thomaz com sua insistência em tê-lo por completo (o que para ela requer exclusividade).
A leveza de Thomaz pesa para ela - para ele a vida é um grande entretenimento. Talvez daí venha seu charme...
PS:
1) Essa frase me faz pensar onde colocamos nossa luz.2) A cena final do filme ficou indelével em minha memória. Acho que vou rever esse filme, me deu uma nostalgia...
3) O chapéu era igual a esse da foto.
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quinta-feira, 15 de julho de 2010
Burn it Blue
Hoje ganhei, de um amigo muito querido, uma música: Burn it blue, composição de Elliot Goldnthal.
E, como forma de agradecer e demonstrar meu afeto por ele, transcrevo um trechinho da canção, que faz parte da trilha premiada do filme sobre a Frida Kahlo, que é um dos meus preferidos.
Quem canta é o Caetano Veloso e a mexicana Lila Downs.
Aí vai um trechinho de uma tradução livre:
"Incendei em azul
Incendei esta casa
Incendei em azul
Coração ficando vazio
Tão perdido sem você
Mas o céu da noite desabrocha com fogo
E a cama em fogo flutua mais alto
E ela está livre pra voar...."
Vale a pena procurar na net e ouvir a interpretação dos dois, no original, em inglês. Emocionante!!!!
E, como forma de agradecer e demonstrar meu afeto por ele, transcrevo um trechinho da canção, que faz parte da trilha premiada do filme sobre a Frida Kahlo, que é um dos meus preferidos.
Quem canta é o Caetano Veloso e a mexicana Lila Downs.
Aí vai um trechinho de uma tradução livre:
"Incendei em azul
Incendei esta casa
Incendei em azul
Coração ficando vazio
Tão perdido sem você
Mas o céu da noite desabrocha com fogo
E a cama em fogo flutua mais alto
E ela está livre pra voar...."
Vale a pena procurar na net e ouvir a interpretação dos dois, no original, em inglês. Emocionante!!!!
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