Por que "clepsidro-me"?!?!

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quarta-feira, 6 de maio de 2015

Nostalgia


Há muitos anos (uns 20?), eu frequentava uma livraria pertinho da minha casa. Já conhecia o dono e os vendedores, que eram realmente apaixonados por livros e com quem eu adorava conversar - às vezes passava lá só pra falar um oi e dar um dedo de prosa. 
Já era da casa: quando eu chegava, eles vinham me cumprimentar e depois me deixavam fuçar as prateleiras à vontade, sem pressão pra comprar, mas sempre com muita disposição pra me ajudar a encontrar o que eu queria. Eu tinha até acesso ao "porão", lugar vetado aos clientes comuns e onde eu passava um bom tempo, remexendo em títulos que ainda não tinham ido para as prateleiras. 
E quando tinha novidade de meus autores favoritos (que eles sabiam de cor), lá vinham eles com o livro: "Olha o que chegou. Você vai gostar..." 
Sem falar que encontravam tudo quanto é livro que eu queria - era só encomendar e segurar a ansiedade da espera! 
Hoje o local é um instituto de depilação, sempre que entro lá e dou de cara com o jardim interno, bate uma nostalgia!! 
Ai, que saudades da "minha livraria": do tempo que passava lendo naquele jardim e dos meus amigos de lá. 

PS: Essas recordações vieram à tona por conta da matéria abaixo:

http://followthecolours.com.br/just-coolt/9-livrarias-independentes-que-voce-precisa-descobrir-em-sp/



terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

- Escute, senhor inspector: o crime que está sendo cometido aqui não é esse que o senhor anda à procura.
- O que quer dizer com isto?
- Olhe para esses velhos, inspector. Eles todos estão morrendo.
- Faz parte do destino de qualquer um de nós.
- Mas não assim, o senhor entende? Estes velhos não são apenas pessoas.
- São o quê, então?
- São guardiões de um mundo. É todo esse mundo que está sendo morto.
- Desculpe, mas isso, para mim, é filosofia. Eu sou um smples polícia.
- O verdadeiro crime que esta a ser cometido aqui é que estão a matar o antigamente...
- Continuo sem entender.
- Estão a matar as últimas raízes que poderão impedir que fiquemos como o senhor...
- Como eu?
- Sim, senhor inspector. Gente sem história, gente que existe por imitação.


Mia Couto, em A varanda do frangipani


segunda-feira, 29 de abril de 2013

Línguas que não sabemos que sabíamos

Num conto que nunca cheguei a publicar acontece o seguinte: uma mulher, em fase terminal de doença, pede ao marido que lhe conte uma história para apaziguar as insuportáveis dores. Mal ele inicia a narração, ela o faz parar:
_ Não, assim não. Eu quero que me fale numa língua desconhecida.
- Desconhecida? - pergunta ele.
- Uma língua que não exista. Que eu preciso tanto de não compreender nada!
O marido se interroga: como se pode saber falar uma língua que não existe? Começa por balbuciar umas palavras estranhas e sente-se ridículo como se a si mesmo desse provas da incapacidade de ser humano. Aos poucos, porém, vai ganhando mais à vontade nesse idioma sem regra. E ele já não sabe se fala, se canta, se reza. Quando se detém, repara que a mulher está adormecida, e mora em seu rosto o mais tranquilo sorriso  Mais tarde, ela lhe confessa: aqueles murmúrios lhe trouxeram lembranças de antes de ter memória. E lhe deram o conforto desse mesmo sono que nos liga ao que havia antes de estarmos vivos.
Na nossa infância, todos nós experimentamos este primeiro idioma, o idioma do caos, todos nós usufruímos do momento divino em que nossa vida podia ser todas as vidas e o mundo ainda esperava por um destino  James Joyce chamava de "caosmologia" a esta relação com o mundo informe e caótico. Essa relação, meus amigos, é aquilo que faz mover a escrita, qualquer que seja o continente, qualquer que seja a nação, a língua ou o gênero literário.

Mia Conto, no texto Línguas que não sabemos que sabíamos, do livro E se Obama fosse africano.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Ítaca


Hoje eu li alguns poemas do Alexandrino Konstantinos Kávafis e um deles - Ítaca -  me chamou especial atenção, talvez porque ainda não aprendi a lição que ele encerra. Ei-lo:

Se partires um dia rumo à Ítaca,
faz votos de que o caminho seja longo, repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o colérico Posídon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrarás
se altivo for teu pensamento, se sutil
emoção teu corpo e espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o bravio Posídon hás de ver,
se tu mesmo não os levares dentro da alma, se tua alma não os puser diante de ti.


Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
nas quais, com que prazer, com que alegria, tu hás de entrar pela primeira vez um porto
para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir:
madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,
e perfumes sensuais de toda espécie,
quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrina
para aprender, para aprender dos doutos.


Tem todo o tempo Ítaca na mente
Estás predestinado a ali chegar.
Mas não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
e fundeares na ilha velho enfim
rico de quanto ganhaste no caminho
sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mias do que isso não cumpre dar-te.


Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência
e agora sabes o que significam Ítacas.

(Poemas, tradução de José Paulo Paes, Ed Nova Fronteira, 1982)

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Cicatrizes

"Nas pernas escuras da moça havia muitas cicatrizes brancas pequeninas. E pensei: Será que essas cicatrizes estão no seu corpo inteiro, como as luas e estrelas no seu vestido? Achei que isso também seria bonito, e peço-lhe neste instante que faça o favor de concordar comigo que uma cicatriz nunca é feia. Isto é o que aqueles que produzem as cicatrizes querem que pensemos. Mas você e eu temos de fazer um acordo e desafiá-los. Temos de ver todas as cicatrizes como algo belo. Combinado?"
(da página 17, do livro "Pequena Abelha", de Chris Cleave)

"O vento soprou no sári amarelo e vi uma cicatriz na garganta dela, de um lado a outro, grossa como um dedo mindinho. Branca igual a um osso na pele escura dela. Encalombada e enrolada em torno da traqueia dela como se não quisesse soltá-la. Como se achasse que ainda tinha chance de acabar com ela. Ela me viu olhando e escondeu a cicatriz com a mão, e aí olhei para a mão. Havia cicatrizes  na mão também. Combinamos aquilo sobre cicatrizes, eu sei, mas dessa vez desviei o olhar porque às vezes a beleza é demais."
(da página 66, do livro "Pequena Abelha", de Chris Cleave)

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Nelson Rodrigues

Em 23 de agosto de 1912, nascia, em Recife, Nelson Rodrigues.

Portanto, acabamos de comemorar 100 anos do nascimento desse menino que via o mundo pelo buraco da fechadura.

Dono  de um humor ácido e de inúmeras frases sensacionais e polêmicas, o escritor e dramaturgo foi homenageado, pelo Itaú Cultural, com uma exposição, a qual visitei. Abaixo vocês têm uma pequena degustação:















PS: Pra quem gostou das frases, sugiro a leitura do Flor de Obsessão, livro no qual o Ruy Castro reuniu as "mil melhores frases" de Nelson Rodrigues.

terça-feira, 7 de agosto de 2012


"Este segundo pensamento lhe ocorria sobretudo à noite, no emaranhado caótico de imagens que precede o sono, quando a mente está demasiado debilitada para contar mentiras a si mesma"

A solidão dos números primos, de Paolo Giordano

terça-feira, 31 de julho de 2012

  
“Palavras são, na minha nada humilde opinião, nossa inesgotável fonte de magia.
Capazes de causar grandes sofrimentos, e também de remediá-los.”

Alvo Dumbledore, diretor emérito da Escola de Bruxaria de Hogwarts

                                   Harry Potter - J. K. Rowling 
  


Não sou fã da série Harry Potter, vi só um filme e não li nenhum livro, mas várias pessoas já me disseram que deveria assistir aos filmes. Estão na lista de filmes, livros e lugares para degustar.
Então, se não sou fã, por que postei essa frase? Porque concordo com ela. Um amigo ma enviou ("ma enviou" é ataque de frescurice, mas vá lá) por email, cujo título era "sobre suas amigas, as palavras".
Concordo que as palavras são minhas amigas porque nelas sempre encontro refrigério, como se fossem um ombro amigo ou o colo de minha irmã. E porque sinto enorme prazer na companhia delas, especialmente quando escritas.
Dia desses estava dizendo que precisava "prazeirar" minha vida. Agora, escrevendo este post, me dei conta de que faz tempo que não leio nada arrebatador - os últimos livros têm sido raros e mornos.
Mas certamente isso vai mudar, vou resgatar velhos amigos, cuja leitura é sempre prazerosa.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Descoberta

Domingo, estava lendo um livro de fotografia - resisto à tentação de usar o verbo ver, pois, apesar de a maioria das páginas apresentarem belas imagens, eu lia (no sentido que Paulo Freire usa esse verbo) as fotos e as palavras.


Durante a leitura, me deparei com uma frase impactante de um fisiologista húngaro, ganhador do Nobel de Medicina/Fisiologia de 1937.


Talvez você esteja se perguntando o que a frase de um cientista estaria fazendo num livro de fotografia da National Geographic. Talvez se souber qual é a frase, você pense em algo que ninguém pensou:


"Descoberta é ver o que todo mundo viu e pensar o que ninguém pensou"


(Albert Szent-Györgyi)

quinta-feira, 22 de março de 2012

Isabel Allende

Pela primeira vez, estou lendo Isabel Allende. Ando me deliciando com as histórias das mulheres do livro "Contos de Eva Luna".
Um trechinho que particularmente me agradou:

- Nem sequer me olha, avô. É rica, bela, nobre, tem tudo. (...) Se pelo menos me deixasse falar-lhe!
- Falar-lhe? Para quê? Não há nada a dizer a uma mulher como essa, filho.
- Ofereci-lhe um colar de rainha e ela o devolveu sem uma única palavra.
- Dá-lhe qualquer coisa que ela não tenha.
- O que, por exemplo?
- Um bom motivo para rir, isso nunca falha com as mulheres.


Pura verdade!! Não sou rica, nem bela, nem nobre, mas confesso que é quase impossível resistir a um homem que me faça rir. ;)
Se quiser saber se a tática deu certo com o apaixonado aí de cima, leia o conto "Presente para uma noiva".

domingo, 26 de fevereiro de 2012

As três palavras mais estranhas

Quando pronuncio a palavra Futuro,
A primeira sílaba já se perde no passado.

Quando pronuncio a palavra Silêncio,
suprimo-o

Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não ser


Esse poema é da escritora polonesa Wislawa Szymborska, cujo primeiro livro em Português - Poemas - foi lançado no ano passado.
Sua ironia pode ser sentida na "degustação" que está disponível no site da Companhia das Letras.

http://companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=13056

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Mas todo romance tem que ser necessariamente uma coisa bela?, pergunta a personagem ainda no início de Beleza e tristeza. A pergunta fica suspensa no ar, ninguém lhe responde. Nem o autor. Kawabata, o faz, como narrador. A resposta seria: talvez não. bbb Ou talvez sim, um romance se torna necessariamente uma coisa bela ainda que feito de coisas "feias". O que um romance não tem necessariamente de ser é incômodo. Quem sabe apenas os grandes romances incomodem.




(Teixeira Leite, no prefácio do livro Beleza e tristeza, de Yasunari Kawabata, ed Globo, 2008)


Ardente e silenciosamente, se acariciaram durante horas, tremendo não por se descobrirem, mas por se reconhecerem, como se num mundo esquecido se tivessem amado. E quando seus corpos se fundiram não havia mais espaço, não havia mais tempo - só a eternidade em cada instante.




(Em nome da princesa morta, Kenizé Mourad, ed Globo, p. 453)
"O quarto nupcial desaparece sob montões de flores. Sobre bandejas de prata, frutos e doces estão dispostos em pirâmides. Nos queimadores colocados nos quatro cantos do aposento, o almíscar e o sândalo se consomem. No meio, ressalta-se o leito, imenso, guarnecido de cetim branco e borbotões de renda.
(...)
Há muito tempo a noiva está pronta. Apoiada em seu travesseiro ela espera. Que faz Amir?
(...)
O tempo passa. O que ela parece, sozinha nesse grande leito? Humilhada, Selma aperta os lábios: não demonstra sua confusão.
Após uma hora, finalmente, Amir aparece. Estava com sua irmã (...) que tinha um problema urgente pra resolver. Selma está ferida. Um problema urgente... provavelmente inventado em seus mínimos detalhes (...) para mostrar publicamente seu poder diante da nova esposa. (...)
- O que há, minha querida? - Amir se deteve à beira da cama. Olha sua jovem esposa com inquietude - A senhora está passando mal?
Com a cabeça enfiada nos travesseiros, Selma soluça.
- Vou chamar um médico.
- Não!
Muito vermelha, ela se ergue. Então, ele não compreende nada.
Amir hesita. Que fazer? Ela parece enfurecida. "Será que disse alguma coisa que a ofendeu? Ela parecia tão feliz durante a cerimônia! O que aconteceu?" Tem vontade de apertá-la em seus braços, consolá-la, mas não ousa: com certeza vai repeli-lo.
"... Por que ele está ali a me olhar? Estou com frio. Se ele pudesse me tomar contra ele, abraçar-me, aquecer-me..."
"Como sou imbecil!" pensa ele. "A pobre está simplesmente atemorizada. provavelmente, está pensando que vou me precipitar sobre ela, usar de meus direitos. Não compreende que a respeito. Esperarei que se habitue comigo. Tenho muito tempo."
Ele sentou-se à beira da cama.
- Essse dia foi cansativo, a senhora precisa dormir. Não a perturbarei.
Estupefata, Selma o olhou: "Está brincando? Será que ela é tão pouco desejável? Ela sonhara tanto com esse momento. "Que tola! No entanto, sabia que não era um casamento de amor: pois bem, ele lhe faz simplesmente compreender que ela não lhe agrada."
Intrepidamente, ergue os ombros e, com ar indiferente, diz:
- De fato, estou cansada. Boa noite.
Encolheu-se do outro lada da cama. Amir suspira. Esperava pelo menos um sorriso, uma palavra afetuosa, sinal de que apreciava sua delicadeza. Ele, por sua vez, estende-se suavemente para não perturbá-la. Há meses contemplava sua foto e esperava se encontrar ao lado dela. Não foi assim que imaginara sua noite de núpcias."
( Em nome da princesa morta, de Kenizé Mourad - Ed Globo, 1988, p.255/256)

Quando li esse texto, fiquei pensando em quantas vezes não vivi mal entendidos pela simples razão de não mostrar meus sentimentos. E por que às vezes resisto em mostrar o que sinto? Por que tenho medo de ser ridícula, de ser rejeitada, de passar por boba, de... de... de... São tantos os motivos! (e os medos!)
Mas todos os motivos têm, de alguma maneira, relação com o fato de me ter em alta conta, com meu orgulho (orgulho é diferente de autoestima). Sempre tento me lembrar de não me levar tão a sério.
Muito tempo antes de ler esse texto eu já havia pensado essas coisas (postei o texto porque o achei emblemático) e percebi quão desatrosos podem ser o orgulho, a necessidade de se proteger e a falta de vontade de ver o outro com olhos amorosos.
Que Deus me dê sabedoria para discernir quando estou sendo muito orgulhosa e pouco amorosa com meus queridos!

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Ontem fui bruscamente tragada para dentro de um sebo, que há pouco foi inaugurado, perto de minha casa.
Só consegui sair de lá depois de muita luta e sob a escolta do Alberto Caeiro e do Yasunari Kawabata.
Não encontrei com quem queria - Adélia Prado - mas não posso me queixar, saí em muito boa companhia, que compartilho com vocês:

II
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo comigo
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do mundo

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...

(Alberto Caeiro , em O guardador de rebanhos)


XIII
Leve, leve, muito leve,
Um vento muito leve passa,
E vai-se, sempre muito leve,
E eu não sei o que penso
Nem procuro sabê-lo.

(Alberto Caeiro, em O guardador de rebanhos)

Aceita o universo
Como to deram os deuses.
Se os deuses te quisessem dar outro
Ter-to-iam dado.

Se há outras matérias e outros mundos...
Haja.

(Alberto Caeiro, em Poemas Inconjuntos)

Ainda não posso compartilhar nada do Kawabata, pois primeiro tenho que terminar o romance que estou lendo agora pra depois começar o dele. Mas confesso que estou numa curiosidade! Ainda bem que o carnaval está ai!!!

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Em nome da princesa morta




"Durante algumas semanas, ela vai se esforçar para encontrar essa emoção e esse sofrimento que a tranquilizam (...) Em vão. Tem o sentimento de ter realmente perdido tudo, agora que perdeu até seu desgosto"






(do livro Em nome da princesa morta, de Kinizé Mourad, Ed Globo, 1988, p. 169)

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

"Amamos os símbolos que vemos escritos nalguma parte do corpo da pessoa amada. O amor pertence à ordem da poesia."



Cantos do Pássaro Encantado - Rubem Alves
"Saudade é quando o momento tenta fugir da lembrança pra acontecer de novo e não consegue"

(Mania de Explicação - Adriana Falcão)

segunda-feira, 21 de novembro de 2011



Tristeza é uma mão gigante

que aperta seu coração





(Adriana Falcão - Mania de Explicação)

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Oswald de Andrade




























Ontem deu vontade de reler o Oswald de Andrade e hoje, de compartilhar uns poemas dele, do livro chamado Pau-Brasil, de 1925:




ESCAPULÁRIO


No Pão de Açúcar

De cada dia

Dai-nos Senhor

A poesia

De cada dia





3 DE MAIO


Aprendi com meu filho de dez anos

Que a poesia é a descoberta

Das coisas que eu nunca vi




SOL



Uma vez fui a Guará

A Guaratingueta

E agora

Nesta hora de minha vida

Tenho uma vontade vadia

Como um fotógrafo





III


Granada é triste sem ti


Apesar do sol de ouro

E das rosas vermelhas



V



Que alegria teu rádio

Fiquei tão contente

Que fui à missa


Na igreja toda gente me olhava

Ando desperdiçando beleza

Longe de ti





VI



Que distância!

Não choro

Porque meus olhos ficam feios




E uns do livro Primeiro Caderno de Poesias do Aluno Oswald de Andrade, de 1927:




OFERTA



Quem sabe

Se algum dia

Traria


O elevador

Até aqui

O teu amor



AMOR

Humor




BALADA DO ESPLANADA

Ontem à noite

Eu procurei

Ver se aprendia

Como é que se fazia

Uma balada

Antes de ir

Pro meu hotel


É que este

Coração

Já se cansou

De viver só

E quer então


Morar contigo

No Esplanada




Eu qu'ria


Poder


Encher


Este papel


De versos lindos


É tão distinto


Ser menestrel



No futuro


As gerações


Que passariam


Diriam


É o hotel


Do menestrel




Pra m'inspirar


Abro a janela


Como um jornal


Vou fazer


A balada


Do Esplanada


E ficar sendo


O menestrel


Do meu hotel


Mas não há poesia


Num hotel


Mesmo sendo


'Splanada


Ou Grand-Hotel



Há poesia


Na dor


Na flor


No beija-flor


No elevador



PS: Os quadros são da Tarsila do Amaral, esposa do Oswald. Em um, que desconheço o nome (acho que não tem), ela retrata o marido e o outro chama-se Abaporu.