Por que "clepsidro-me"?!?!

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quarta-feira, 27 de março de 2013

Fumaça,
ainda que de incenso,
mas fumaça.

Imagem holográfica,
ainda que bela,
mas ilusória.

Projeção do meu eu,
sedutor,
mas mera projeção.

A vida não é feita de
fumaça,
imagem,
ou projeção.

A vida
é feita
de carne e osso,
atos,
fatos,
alimento
pro corpo e pra alma.

Chega.

Quero a vida
como ela é.


A dor de uma mulher é arte de

estrela cadente

Fui sabendo de mim

Fui sabendo de mim
por aquilo que perdia

pedaços que saíram de mim
com o mistério de serem poucos
e valerem só quando os perdia

fui ficando
por umbrais
aquém do passo
que nunca ousei

eu vi
a árvore morta
e soube que mentia

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

Levitando


Quero registrar duas frases do último livro que li do Agualusa, o Manual Prático de Levitação:


"O passado é como o mar: nunca sossega", do conto Um ciclista; e


"Se nada mais der certo leia Clarice", do conto de mesmo nome.

Embora tenha adorado essas frases, elas não são do meu conto favorito, o Catálogo de Sombras, em que o autor mistura Fernando Pessoa, Alberto Caeiro  candomblé e macumba, além de fazer referência à cidade baiana de Cachoeira, onde estive e me hospedei na Pousada do Convento do Carmo, que também está no conto.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Cicatrizes

"Nas pernas escuras da moça havia muitas cicatrizes brancas pequeninas. E pensei: Será que essas cicatrizes estão no seu corpo inteiro, como as luas e estrelas no seu vestido? Achei que isso também seria bonito, e peço-lhe neste instante que faça o favor de concordar comigo que uma cicatriz nunca é feia. Isto é o que aqueles que produzem as cicatrizes querem que pensemos. Mas você e eu temos de fazer um acordo e desafiá-los. Temos de ver todas as cicatrizes como algo belo. Combinado?"
(da página 17, do livro "Pequena Abelha", de Chris Cleave)

"O vento soprou no sári amarelo e vi uma cicatriz na garganta dela, de um lado a outro, grossa como um dedo mindinho. Branca igual a um osso na pele escura dela. Encalombada e enrolada em torno da traqueia dela como se não quisesse soltá-la. Como se achasse que ainda tinha chance de acabar com ela. Ela me viu olhando e escondeu a cicatriz com a mão, e aí olhei para a mão. Havia cicatrizes  na mão também. Combinamos aquilo sobre cicatrizes, eu sei, mas dessa vez desviei o olhar porque às vezes a beleza é demais."
(da página 66, do livro "Pequena Abelha", de Chris Cleave)

terça-feira, 9 de outubro de 2012

O gato do rabino


Fui ver esse filme sensacional sobre um gato que passa a falar depois de engolir o papagaio do rabino. A animação é ótima, o traço do desenhista, muito bom (estou até pensando em comprar o HQ) e o filme, repleto de cor.
Gostei especialmente porque o gato, de um humor refinado e um pouco ácido, nos faz refletir sobre nossas crenças - religiosas ou não. Temas como tolerância e amizade são tratados de uma forma inteligente e, às vezes, sarcástica.
Do filme, anotei duas frases para pensar:
"Você dá nome científico às coisas e acha que entendeu."
"Os pequenos detalhes mostram a extensão do que não sabemos."
Vi o filme na sexta e ainda continuo pensando nas frases.
Gosto disso.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Nelson Rodrigues

Em 23 de agosto de 1912, nascia, em Recife, Nelson Rodrigues.

Portanto, acabamos de comemorar 100 anos do nascimento desse menino que via o mundo pelo buraco da fechadura.

Dono  de um humor ácido e de inúmeras frases sensacionais e polêmicas, o escritor e dramaturgo foi homenageado, pelo Itaú Cultural, com uma exposição, a qual visitei. Abaixo vocês têm uma pequena degustação:















PS: Pra quem gostou das frases, sugiro a leitura do Flor de Obsessão, livro no qual o Ruy Castro reuniu as "mil melhores frases" de Nelson Rodrigues.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Mentiras

Esses dias estava lendo um livro que está na estante há alguns meses. Ele é composto por pequenos textos, independentes entre si. É como seu autor diz: "Assim é esse livro, sem princípio, sem meio, sem fim. Um álbum de fotografias em que cada fotografia vale por si mesma." Como estou sem tempo nenhum para ler, mas não posso deixar de alimentar meu vício, esse é o livro ideal pra mim.
Reproduzo abaixo um dos textos que achei bem pertinente para o momento em que estamos vivendo, chama-se "Novo slogan político":

Alguém escreveu num muro branco da Universidade do Porto, em Portugal, a sua exigência política: "Queremos mentira novas!". Quem o escreveu sabia das coisas. Sabia que era inútil pedir o impossível: "Basta de mentiras!". Na política, apenas as mentiras são possíveis. Mas ele já estava cansado das mentiras velhas, batidas, como piadas cujo fim já se conhece, que diariamente aparece nos jornais. Mentiras velhas são um desrespeito à inteligência daquelas a que são dirigidas. Que mintam, mas que respeitem a minha inteligência! Mintam usando a imaginação! Por isso escrevia, em nome da inteligência, do possível e do humor: "Queremos mentiras novas!"  (Ostra feliz não faz pérolas, Rubem Alves)

Claro que quando li isso, pensei imediatamente nas eleições municipais que estão sendo disputadas em todo o País. Mas agora, ao digitar o texto, me dei conta de que nós também mentimos as mesmas mentiras por milênios: mentimos para os outros e mentimos para nós mesmos. Acho que a avassaladora maioria não mente porque é mau caráter, talvez nem perceba que está mentindo. Mas isso não transforma a mentira em verdade.
Daí pensei: quais mentiras preciso parar de contar, aos outros, e, especialmente, a mim mesma?!?! Em quais mentiras preciso deixar de acreditar?
Eu, ao contrário do pichador português, quero o impossível (e, pasmem, muitas vezes consigo!!)

domingo, 2 de setembro de 2012



céu recatado
escondido por rendas brancas

árvores despudoradas
com bocas carmesins

pureza e malícia
alimento para o homem


segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Li hoje, com certo atraso, a coluna do Contardo Calligaris de quinta-feira, dia 16/08, e não posso deixar sem registro uma frase com a qual concordo inteiramente:

"Educar implica o risco de ser detestado - risco que um pai deve correr sem hesitação".

PS: O texto foi escrito por ocasião do Dia dos Pais e, creio eu, ser por isso que ele se refere apenas a pais, mas a frase bem pode ser estendida a qualquer que se entregue a tarefa de educar.

terça-feira, 7 de agosto de 2012


"Este segundo pensamento lhe ocorria sobretudo à noite, no emaranhado caótico de imagens que precede o sono, quando a mente está demasiado debilitada para contar mentiras a si mesma"

A solidão dos números primos, de Paolo Giordano

terça-feira, 31 de julho de 2012

  
“Palavras são, na minha nada humilde opinião, nossa inesgotável fonte de magia.
Capazes de causar grandes sofrimentos, e também de remediá-los.”

Alvo Dumbledore, diretor emérito da Escola de Bruxaria de Hogwarts

                                   Harry Potter - J. K. Rowling 
  


Não sou fã da série Harry Potter, vi só um filme e não li nenhum livro, mas várias pessoas já me disseram que deveria assistir aos filmes. Estão na lista de filmes, livros e lugares para degustar.
Então, se não sou fã, por que postei essa frase? Porque concordo com ela. Um amigo ma enviou ("ma enviou" é ataque de frescurice, mas vá lá) por email, cujo título era "sobre suas amigas, as palavras".
Concordo que as palavras são minhas amigas porque nelas sempre encontro refrigério, como se fossem um ombro amigo ou o colo de minha irmã. E porque sinto enorme prazer na companhia delas, especialmente quando escritas.
Dia desses estava dizendo que precisava "prazeirar" minha vida. Agora, escrevendo este post, me dei conta de que faz tempo que não leio nada arrebatador - os últimos livros têm sido raros e mornos.
Mas certamente isso vai mudar, vou resgatar velhos amigos, cuja leitura é sempre prazerosa.

"Sou capaz de colocar uma campanha publicitária no ar em três dias, mas não tem santo que faça o outono chegar um mês antes."

Mario Cohen
(ex-publicitário e atual produtor de azeitonas para fabricação de azeite)
Serafina - Ago/12

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Amizades líquidas ou porque meus amigos não são os do Facebook


Se você é meu amigo do Facebook (FB) e se ofendeu com título deste post, peço duas coisas: primeiro, sinceras desculpas, não pretendia ofendê-lo. Segundo, que leia este texto até o fim para que compreenda minha afirmação e, assim, quem sabe, me perdoe.

Em minha defesa tenho a dizer que meus amigos “de verdade” (reais, dos quais eu conheço o rosto, a voz, as qualidades e os defeitos) também estão na lista de “amigos” virtuais. Contudo o inverso não é verdadeiro.

Antigamente, fazíamos uma distinção clara entre “colegas” e “amigos”. Colega era aquele com quem se mantinha uma relação superficial. Já amigo era uma pessoa próxima, que frequentava sua casa e com quem você mantinha uma relação de companheirismo. Quando morei no Rio de Janeiro, brincava com os cariocas que eles poderiam se considerar amigo de um paulista quando fossem convidados para ir a casa dele.

Andei pensando essas coisas desde que entrei nas redes sociais, mas nunca parei para refletir sobre elas como o fiz nesses últimos tempos. Se você acompanha meu Facebook pode achá-lo meio desinteressante porque não posto lá muitas coisas: nunca tive vontade de compartilhar minha dor de dente, meu presente dos Dias dos Namorados ou minhas fotos do churrasco de domingo.

Não compartilho muitas coisas porque não consigo entender o interesse que despertariam nos outros (a menos que seja um interesse impertinente e despropositado pela vida alheia) e outras não são postadas porque devem ser compartilhadas com pessoas especiais e não com o “planeta”.

E por que essas questões resolveram me assaltar ultimamente? Por que comecei a ler um livro - Gadget: você não é um aplicativo - que questiona, entre outras coisas, o papel do indivíduo no mundo digital e afirma que os indivíduos estão cada vez mais despersonalizados.

Isso me fez lembrar do Bauman, que diz que hoje temos uma vida líquida, na qual a volatilidade das relações é um imperativo. As relações afetivas são um espelho disso; e os “colegas” do FB, um exemplo contumaz.

Hoje é muito comum termos muitos “colegas” no FB, que ingenuamente chamamos de amigos. A noção de amizade está cada vez mais líquida...

E o que Bauman quer dizer com esse termo? Ele opõe o termo a “sólido”. Para o sólido é mais difícil conformar-se (assumir uma forma que não é a sua). Por outro lado, o líquido, além de se amoldar com muita facilidade, derrama-se por todo o espaço, mas não se apropria dele.

Sob esse aspecto, as amizades virtuais são bastante líquidas. Na minha “time line” passam com muita fluidez meus “amigos” que, assim como a água, me escapam. Suas histórias são rapidamente substituídas sem que eu tenha tempo de assimilá-las, de sedimentá-las. Elas são prontamente “consumidas” e substituídas, conforme a rapidez que a sociedade de consumo exige. Nós “fingimos” participar da vida de nossos “amigos” e compartilhar suas histórias, aderindo à lógica do simulacro, tão bem discutida por Baudrillard.

Na sociedade de liquidez, simulacro e consumo, o “eu” se despersonaliza e, consequentemente, pasteuriza sua relação com o outro.

Entendeu agora porque faço questão de diferenciar os amigos? Amigo é valioso demais para se deixar evaporar...


PS: Esse texto foi produzido para a avaliação final de uma das disciplinas de meu curso de pós sobre Mídias Digitais.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Casamento

Por conta de um vídeo postado no Facebook, essses dias estava "discutindo" com uns amigos - a maioria músicos - sobre a mulher fazer a base pros namorados músicos. Claro que a discussão caiu no tema "machismo" (base, no jargão musical é cozinha). Muitos comentários a respeito: alguns indignados e outros de apoio.
Como disse lá no Face, acho essa discussão meio ultrapassada. Será que a gente não aprendeu ainda que nas relações, inclusive as amorosas, cada hora um faz a base pro outro? Se eu não apoiar as pessoas a quem amo e não receber apoio delas, de que serve a relação? Só pra horas boas? Isso me parece bem superficial. Já diz lá em Eclesiastes 4: "Melhor é serem dois do que um, porque se um cair, o outro levanta o seu companheiro; mas ai do que estiver só; pois, caindo, não haverá outro que o levante."
Esse papo de machismo e feminismo me fez lembrar de um poema belíssimo da Adélia Prado, cujo título é Casamento.


Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.

Acho esse texto lindíssimo pela cumplicidade do casal nas coisas simples do dia a dia. Na minha opinião, esse é o grande segredo de todo relacionamento.
E, a menos que eu esteja vendo coisas, esse é um texto de uma sensualidade penetrante, o que me leva a crer que a cumplicidade faz espocar o erotismo...


PS: o Aurélio traz como sentido figurado de espocar:  desabotoar impetuosamente. Sugestivo, não?   ;)

PS: Texto extraído do livro "Adélia Prado - Poesia Reunida", Ed. Siciliano - São Paulo, 1991, pág. 252.