do filme Aurora, de F. W. Murnau
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
- Escute, senhor inspector: o crime que está sendo cometido aqui não é esse que o senhor anda à procura.
- O que quer dizer com isto?
- Olhe para esses velhos, inspector. Eles todos estão morrendo.
- Faz parte do destino de qualquer um de nós.
- Mas não assim, o senhor entende? Estes velhos não são apenas pessoas.
- São o quê, então?
- São guardiões de um mundo. É todo esse mundo que está sendo morto.
- Desculpe, mas isso, para mim, é filosofia. Eu sou um smples polícia.
- O verdadeiro crime que esta a ser cometido aqui é que estão a matar o antigamente...
- Continuo sem entender.
- Estão a matar as últimas raízes que poderão impedir que fiquemos como o senhor...
- Como eu?
- Sim, senhor inspector. Gente sem história, gente que existe por imitação.
- O que quer dizer com isto?
- Olhe para esses velhos, inspector. Eles todos estão morrendo.
- Faz parte do destino de qualquer um de nós.
- Mas não assim, o senhor entende? Estes velhos não são apenas pessoas.
- São o quê, então?
- São guardiões de um mundo. É todo esse mundo que está sendo morto.
- Desculpe, mas isso, para mim, é filosofia. Eu sou um smples polícia.
- O verdadeiro crime que esta a ser cometido aqui é que estão a matar o antigamente...
- Continuo sem entender.
- Estão a matar as últimas raízes que poderão impedir que fiquemos como o senhor...
- Como eu?
- Sim, senhor inspector. Gente sem história, gente que existe por imitação.
Mia Couto, em A varanda do frangipani
sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
Conforto
"Conforto não é uma poltrona fácil, é um estado de calma, quando o corpo, o olhar, a mente estão em relaxamento.
Quero algo que se encaixe com meu modo de vida, com apenas o necessário para viver e nada mais, onde família e amigos compartilhem o sentimento de se viver em casa."
John Pawson, arquiteto inglês.
Severina - abril/2013
Severina - abril/2013
segunda-feira, 18 de novembro de 2013
Na foto,
tirada há 50 anos,
vi um menino.
Causou-me espanto.
Espantou-me não a diferença, mas a semelhança.
O nariz bradava: sou o mesmo.
Os olhos e o sorriso, também reconheci: francos como eu os sabia.
A expressão do rosto,
misto de alegria e curiosidade,
atestava: sou eu, ainda que cem anos
me distanciem do meu retrato.
Minha alma aquietou-se:
desde sempre é assim.
tirada há 50 anos,
vi um menino.
Causou-me espanto.
Espantou-me não a diferença, mas a semelhança.
O nariz bradava: sou o mesmo.
Os olhos e o sorriso, também reconheci: francos como eu os sabia.
A expressão do rosto,
misto de alegria e curiosidade,
atestava: sou eu, ainda que cem anos
me distanciem do meu retrato.
Minha alma aquietou-se:
desde sempre é assim.
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Amante
das orquestras
do cinema
do vinho
do charuto
das sereias perfumadas
das mulheres
das artes
Manda chuva
que não manda no coração
Malcriado
orgulhoso de sua malcriação
Desalmado
que não sabe o fazer
com a sensibilidade da alma
Que o tempo equilibre alma e desalma,
Que Apolo e Dionísio o abençoem!!
jun/13
das orquestras
do cinema
do vinho
do charuto
das sereias perfumadas
das mulheres
das artes
Manda chuva
que não manda no coração
Malcriado
orgulhoso de sua malcriação
Desalmado
que não sabe o fazer
com a sensibilidade da alma
Que o tempo equilibre alma e desalma,
Que Apolo e Dionísio o abençoem!!
jun/13
segunda-feira, 17 de junho de 2013
terça-feira, 21 de maio de 2013
Sensibilidade roubada
Nesse Tempo, como somos imortais, pra que Futuro?
(roubada de um desalmado)
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sexta-feira, 10 de maio de 2013
O tempo todo
eestava consciente de sua presença,
sensível ao seu toque sutil
na minhas costas.
Toque imperceptível para os outros,
indelével para mim.
Não toda a palma da mão,
apenas as pontas dos dedos,
fazendo uma leve pressão nas minhas costas.
Como se dissesse:
"Estou aqui".
Como se fosse
preciso me dizer isso...
Através da blusa fina,
sentia o calor de seus dedos,
que se espalhava pelo meu corpo
Se o desejo
precisa de apenas uma fagulha,
estava ali anunciado
um incêndio...
eestava consciente de sua presença,
sensível ao seu toque sutil
na minhas costas.
Toque imperceptível para os outros,
indelével para mim.
Não toda a palma da mão,
apenas as pontas dos dedos,
fazendo uma leve pressão nas minhas costas.
Como se dissesse:
"Estou aqui".
Como se fosse
preciso me dizer isso...
Através da blusa fina,
sentia o calor de seus dedos,
que se espalhava pelo meu corpo
Se o desejo
precisa de apenas uma fagulha,
estava ali anunciado
um incêndio...
terça-feira, 30 de abril de 2013
Solidão
Solidão é o vagão
do Metrô completamente vazio
no infinito percurso
de 6 estações.
O silêncio se arrasta,
ao som das escadas rolantes.
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segunda-feira, 29 de abril de 2013
Histórias
"Bem, talvez a gente seja feliz demais."
"É, pois é, já faz um tempo que eu andava querendo conversar sobre isso com você. Seria muito melhor se você pudesse me fazer um pouco mais infeliz."
"Pare com isso. Estou falando de história. Como nos conto de fadas: 'E eles viveram felizes para sempre' é sempre a última frase."
"Me faz uma gentileza: seja um pouco mais clara."
Ah, você sabia exatamente o que eu queria dizer. Não é que a felicidade fosse insípida É que ela não dava uma boa narrativa. E uma das nossas melhores e maiores distrações, com a velhice, é recitar, não só para os outros, como também para nós mesmos, nossa própria história. Eu sou mestre nisso: fujo da minha história todo dia e ela me persegue como um vira-latas abandonado. Por isso mesmo, um aspecto meu que mudou da juventude para cá é que agora considero as pessoas com pouca ou nenhuma história para contar como tremendamente afortunadas."
Lionel Shriver, In: Precisamos falar sobre o Kevin
"É, pois é, já faz um tempo que eu andava querendo conversar sobre isso com você. Seria muito melhor se você pudesse me fazer um pouco mais infeliz."
"Pare com isso. Estou falando de história. Como nos conto de fadas: 'E eles viveram felizes para sempre' é sempre a última frase."
"Me faz uma gentileza: seja um pouco mais clara."
Ah, você sabia exatamente o que eu queria dizer. Não é que a felicidade fosse insípida É que ela não dava uma boa narrativa. E uma das nossas melhores e maiores distrações, com a velhice, é recitar, não só para os outros, como também para nós mesmos, nossa própria história. Eu sou mestre nisso: fujo da minha história todo dia e ela me persegue como um vira-latas abandonado. Por isso mesmo, um aspecto meu que mudou da juventude para cá é que agora considero as pessoas com pouca ou nenhuma história para contar como tremendamente afortunadas."
Lionel Shriver, In: Precisamos falar sobre o Kevin
Línguas que não sabemos que sabíamos
Num conto que nunca cheguei a publicar acontece o seguinte: uma mulher, em fase terminal de doença, pede ao marido que lhe conte uma história para apaziguar as insuportáveis dores. Mal ele inicia a narração, ela o faz parar:
_ Não, assim não. Eu quero que me fale numa língua desconhecida.
- Desconhecida? - pergunta ele.
- Uma língua que não exista. Que eu preciso tanto de não compreender nada!
O marido se interroga: como se pode saber falar uma língua que não existe? Começa por balbuciar umas palavras estranhas e sente-se ridículo como se a si mesmo desse provas da incapacidade de ser humano. Aos poucos, porém, vai ganhando mais à vontade nesse idioma sem regra. E ele já não sabe se fala, se canta, se reza. Quando se detém, repara que a mulher está adormecida, e mora em seu rosto o mais tranquilo sorriso Mais tarde, ela lhe confessa: aqueles murmúrios lhe trouxeram lembranças de antes de ter memória. E lhe deram o conforto desse mesmo sono que nos liga ao que havia antes de estarmos vivos.
Na nossa infância, todos nós experimentamos este primeiro idioma, o idioma do caos, todos nós usufruímos do momento divino em que nossa vida podia ser todas as vidas e o mundo ainda esperava por um destino James Joyce chamava de "caosmologia" a esta relação com o mundo informe e caótico. Essa relação, meus amigos, é aquilo que faz mover a escrita, qualquer que seja o continente, qualquer que seja a nação, a língua ou o gênero literário.
Mia Conto, no texto Línguas que não sabemos que sabíamos, do livro E se Obama fosse africano.
_ Não, assim não. Eu quero que me fale numa língua desconhecida.
- Desconhecida? - pergunta ele.
- Uma língua que não exista. Que eu preciso tanto de não compreender nada!
O marido se interroga: como se pode saber falar uma língua que não existe? Começa por balbuciar umas palavras estranhas e sente-se ridículo como se a si mesmo desse provas da incapacidade de ser humano. Aos poucos, porém, vai ganhando mais à vontade nesse idioma sem regra. E ele já não sabe se fala, se canta, se reza. Quando se detém, repara que a mulher está adormecida, e mora em seu rosto o mais tranquilo sorriso Mais tarde, ela lhe confessa: aqueles murmúrios lhe trouxeram lembranças de antes de ter memória. E lhe deram o conforto desse mesmo sono que nos liga ao que havia antes de estarmos vivos.
Na nossa infância, todos nós experimentamos este primeiro idioma, o idioma do caos, todos nós usufruímos do momento divino em que nossa vida podia ser todas as vidas e o mundo ainda esperava por um destino James Joyce chamava de "caosmologia" a esta relação com o mundo informe e caótico. Essa relação, meus amigos, é aquilo que faz mover a escrita, qualquer que seja o continente, qualquer que seja a nação, a língua ou o gênero literário.
Mia Conto, no texto Línguas que não sabemos que sabíamos, do livro E se Obama fosse africano.
domingo, 28 de abril de 2013
Black & White
Libertos de todas as amarras,
misturam
as flores,
as cores, e
das cores
saboreiam o prazer.
Amantes da loucura,
que guarda seus eternos segredos
Vida que aflora das minas
Minas de prazer e desassossego.
(julho/2005)
misturam
as flores,
as cores, e
das cores
saboreiam o prazer.
Amantes da loucura,
que guarda seus eternos segredos
Vida que aflora das minas
Minas de prazer e desassossego.
(julho/2005)
quinta-feira, 25 de abril de 2013
Resposta a Joaquim
O amor comeu tudo
Ou quase tudo
O amor não tragou meu desejo,
Que ousado o desafia:
Decifra-me
Ou devoro-te
PS: No caso, o Joaquim é João. Para entender, veja o poema "os três mal-amados", de João Cabral de Melo Neto
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