Por que "clepsidro-me"?!?!

Leia a primeira postagem e descubra!!! (clique aqui)







terça-feira, 17 de abril de 2012

Paz e silêncio




"Um silêncio é como um lago, uma superfície lisa e compacta.

Dentro, submersas, as palavras aguardam."



(Octavio Paz - O arco e a lira)

Descoberta

Domingo, estava lendo um livro de fotografia - resisto à tentação de usar o verbo ver, pois, apesar de a maioria das páginas apresentarem belas imagens, eu lia (no sentido que Paulo Freire usa esse verbo) as fotos e as palavras.


Durante a leitura, me deparei com uma frase impactante de um fisiologista húngaro, ganhador do Nobel de Medicina/Fisiologia de 1937.


Talvez você esteja se perguntando o que a frase de um cientista estaria fazendo num livro de fotografia da National Geographic. Talvez se souber qual é a frase, você pense em algo que ninguém pensou:


"Descoberta é ver o que todo mundo viu e pensar o que ninguém pensou"


(Albert Szent-Györgyi)
Tenho andado muito grávida de silêncios...
Ando gestando palavras...

(esse silêncio é feto de palavra
que só deve nascer na hora certa,
caso contrário, o parto torna-se de risco)

Às vezes, aborto alguma
e ela sai,
torta, mal formada e mal formulada,
sem nenhuma condição de cumprir seu fim:
mostrar para o lado de fora o que está dentro.

Ou será que mostra?
Será que o está dentro é também assim:
torto e deformado?

Acho que às vezes é...
Por isso preciso gestar silêncios,
Para que as palavras nasçam no tempo exato,
Não para que nasçam belas -
afinal nem sempre a cria é bela -
mas para que nasçam doces, suaves e tranquilas.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Heleno de Freitas




Todos sabem que gosto muito de futebol, embora não esteja tendo muito tempo de acompanhar os jogos. Ontem meu chefe me atualizou sobre a Libertadores - quem diria, ele, que não gosta de futebol, me contando como foi a rodada, a mim que antigamente assistia a XV de Piracicaba e São Bento de Sorocaba!!
Sou alvinegra, aqui com o Corinthians e no Rio com o Botafogo. Sou fiel à clássica combinação do preto e branco! Chiquérrima!!
Por conta dessa paixão, dia desses fui ver o filme Heleno, sobre um dos maiores craques do Botafogo. Confesso que não o conhecia. Minhas paixões no Fogão são o Garrincha e o Túlio Maravilha. Mas também gosto muito do Gérson, Nilton Santos, Didi e Amarildo (substituto do Pelé na Copa de 62).
Gostei muito do filme, apesar de ser extremamente triste. Mas o que eu mais gostei foi da atuação do Rodrigo Santoro, que faz o personagem do título. Já havia visto outros filmes dele e tinha gostado. Ele é um grande ator.
Gosto especialmente da forma como ele se entrega ao personagem, sem nenhuma vaidade. Nesse filme ele está irreconhecível. Na primeira cena do filme, que é em flash back, vemos o Heleno no final da vida. Quando a cena rodou, pensei: Ué, não era o Santoro que fazia esse papel? Isso mesmo, no primeiro momento duvidei de que estava vendo o Rodrigo Santoro. Fantástico!! Isso é entrega, seriedade e profundidade no trabalho como ator.
Me emocionei muito com a história de Heleno e com a entrega de Rodrigo.
Depois do filme, mais dois nomes foram incluídos na lista de minhas paixões: Heleno de Freitas e Rodrigo Santoro - ambos emocionadores.
PS: não sei se a palavra "emocionador" existe, mas no meu dicionário particular significa aquele que provoca emoção forte.
PS': ao que parece Santoro é vascaíno.

Barthes e suas lições

"Eu tento, portanto, permitir-me ser possuído pela força de toda a vida viva: o esquecimento...
Há um tempo quando se ensina aquilo que se sabe.
Mas há um tempo que se segue quando se ensina aquilo que não se sabe.
Talvez agora chegue o tempo de outra experiência: a de desaprender, quando a gente se permite estar à mercê das transformações imprevisíveis que o esquecimento impõe à sedimentação de todos os tipos de conhecimento, de culturas, de crenças... Essa experiência, eu creio, tem um nome ilustre e antiquado, que ouso tomar aqui sem um pingo de vergonha, no lugar preciso da etimologia: sapientia:
nenhum poder,
uma pitada de conhecimento,
uma pitada de sabedoria,
e o máximo possível de sabor..."

Que minha vida seja um eterno e saboroso "desaprendizado"!! Gostaria de ser como o Alberto Caeiro e ver o mundo pela primeira vez, todos os dias. Assim, como o a criança, meu mundo seria mais lúdico e muuuuito mais saboroso!!!
Desaprender é aceitar o imponderável da vida, afinal, como diz Woody Allen, a vida tem vida própria!!

PS: o texto do Roland Barthes é parte de sua aula inaugural no Collège de France e foi transcrita no livro "Aula", publicado pela Cultrix.

terça-feira, 10 de abril de 2012

E por falar em Rio de Janeiro...











Fotos tiradas com meu celular, em jan/12: três do Rio (duas da vista do Parque das Ruínas e uma de uma Igreja em Sta Teresa) e uma da vista da Ilha do Araújo, em Paraty





Duas paixões: Mar e Rubem Alves


Entre o porto e o mar,

eu prefiro o mar...




Lições de Feitiçaria - Rubem Alves

Pessoa falando de pessoas

São os sentimentos que conduzem as sociedades, não as ideias.


Fernando Pessoa

sexta-feira, 23 de março de 2012

A Moreninha




Ontem me falaram desse livro. Lembrei-me da Ilha de Paquetá, lugar que adoro e me traz boas lembranças. Queria reler o romance do Macedo nas sombras das árvores de Paquetá, onde o tempo parece não ter nenhuma importância.








- Seja dado ao homem agonizante lançar seus últimos pensamentos do leito da morte, além dos anos, que já não serão para ele, e penetrar com seus olhares através do véu do futuro!... (...) Eu não vos iludo... vejo lá... bem longe... a promessa realizada! São dois anjos que se unem... vede!... (...) Meus filhos, eu vos vejo casados lá no futuro!...
- Oh!... eis aí outra vez o delírio!... disse a velha vendo a exaltação e o semblante afogueado do enfermo.
- Não (...) Não é delírio... Pois o quê!... não pode o Eterno abençoar a virtude pela minha boca?
(...)
Escutando suas palavras, eu acreditei que estávamos ouvindo uma profecia infalivelmente realizável, pronunciada por um inspirado do Senhor.
(...) O doente, cujas forças pareciam haver reaparecido subitamente, apoiando-se sobre um dos cotovelos, abriu a gaveta de uma mesa, que estava junto de seu leito, e tirando de uma pequena e antiga caixa dois breves, os deu à velha, dizendo:
- Minha mãe, descosa esses dois breves.
A velha, obedecendo pontualmente, os descoseu com prontidão. Os breves eram dois: um verde e outro branco.
Depois o ancião, voltando-se para mim, disse:
- Menino! que trazeis convosco que possais oferecer a esta menina?...
Eu corri com os olhos tudo que em mim havia e só achei (...) um lindo alfinete de camafeu, que meu pai me tinha dado para trazer ao peito e, maquinalmente, pus-lhe nas mãos o meu camafeu.
O velho quebrou o pé do alfinete e dando-o a sua mãe, acrescentou:
- Minha mãe, cosa dentro do breve branco este camafeu.
E voltando-se para minha bela camarada, continuou:
- Menina! que trazeis convosco que possais oferecer a este menino?...
A menina (...) entregou-lhe um botão de esmeralda que trazia em sua camisinha. O velho o deu à sua mãe, dizendo:
- Minha mãe, cosa esta esmeralda dentro do breve verde.
Quando as ordens do ancião foram completamente executadas, ele tomou os dois breves e, dando-me o de cor branca, disse-me:
- Tomais este breve, cuja cor exprime a candura da alma daquela menina. Ele contém o vosso camafeu: se tendes bastante força para ser constante e amar para sempre aquele belo anjo, dai-lho, a fim de que ela o guarde com desvelo.
Eu mal compreendi o que o velho queria (...) entreguei o breve à linda menina, que o prendeu no cordão de ouro que trazia ao pescoço.
Chegou a vez dela. O nosso homem deu-lhe o outro breve, dizendo:
- Tomai este breve, cuja cor exprime as esperanças do coração daquele menino. Ele contém a vossa esmeralda: se tendes bastante força para ser constante e amar para sempre aquele bom anjo, dai-lho, a fim de que ele o guarde com desvelo.
Minha bela mulher executou a insinuação do velho com prontidão, e eu prendi o breve ao meu pescoço com uma fita que me deram.
Quando tudo isto estava feito, o velho prosseguiu ainda:
- Ide, meus meninos; crescei e sede felizes! vós olhastes para mim, pobre e miserável, e Deus olhará para vós...








Link para o livro do Joaquim Manuel de Macedo, no Domínio Público:







Os Lusíadas

"Não se aprende, Senhor, na fantasia,

sonhando, imaginando ou estudando,

senão vendo, tratando, pelejando"



(Os Lusíadas, Canto X, estrofe 153)




Embora o Camões estivesse se referindo à disciplina militar, acho que serve pra qualquer aspecto da vida. De minha parte, posso afirmar que tenho aprendido muito na "lida" da vida.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Isabel Allende

Pela primeira vez, estou lendo Isabel Allende. Ando me deliciando com as histórias das mulheres do livro "Contos de Eva Luna".
Um trechinho que particularmente me agradou:

- Nem sequer me olha, avô. É rica, bela, nobre, tem tudo. (...) Se pelo menos me deixasse falar-lhe!
- Falar-lhe? Para quê? Não há nada a dizer a uma mulher como essa, filho.
- Ofereci-lhe um colar de rainha e ela o devolveu sem uma única palavra.
- Dá-lhe qualquer coisa que ela não tenha.
- O que, por exemplo?
- Um bom motivo para rir, isso nunca falha com as mulheres.


Pura verdade!! Não sou rica, nem bela, nem nobre, mas confesso que é quase impossível resistir a um homem que me faça rir. ;)
Se quiser saber se a tática deu certo com o apaixonado aí de cima, leia o conto "Presente para uma noiva".

Camões



Sempre gostei do Camões.


Hoje, navegando na net, vi essa imagem com um poema dele, um dos meus preferidos.


Fico pensando que ele escreveu isso lá pelo século 16 e é atualíssimo!! Genial!!!





Link da imagem:

quarta-feira, 21 de março de 2012

Mais Drummond: Parolagem da vida

Como a vida muda.
Como a vida é muda.
Como a vida é nula.
Como a vida é nada.
Como a vida é tudo.
Tudo que se perde
mesmo sem ter ganho.
Como a vida é senha
de outra vida nova
que envelhece antes
de romper o novo.
Como a vida é outra
sempre outra, outra
não a que é vivida.
Como a vida é vida
ainda quando morte
esculpida em vida.
Como a vida é forte
em suas algemas.
Como dói a vida
quando tira a veste
de prata celeste.
Como a vida é isto
misturado àquilo.
Como a vida é bela
sendo uma pantera
de garra quebrada.
Como a vida é louca
estúpida, mouca
e no entanto chama
a torrar-se em chama.
Como a vida chora
de saber que é vida
e nunca nunca nunca
leva a sério o homem,
esse lobisomem.
Como a vida ri
a cada manhã
de seu próprio absurdo
e a cada momento
dá de novo a todos
uma prenda estranha.
Como a vida joga
de paz e de guerra
povoando a terra
de leis e fantasmas.
Como a vida toca
seu gasto realejo
fazendo da valsa
um puro Vivaldi.
Como a vida vale
mais que a própria vida
sempre renascida
em flor e formiga
em seixo rolado
peito desolado
coração amante.
E como se salva
a uma só palavra
escrita no sangue
desde o nascimento:
amor, vidamor!

(Parolagem da Vida - Carlos Drummond de Andrade)

segunda-feira, 12 de março de 2012

Steve McCurry

Em dezembro do ano passado, eu convidei meus amigos pra assisitir a uma exposição do Steve McCurry, que estava no Instituto Tomie Otake, em São Paulo.

Uma das fotos que mais me marcou foi a "Tempestade de poeira", de 1983. Suas cores vibrantes impressionam. Ela foi tirada na fronteira entre a Índia e o Paquistão, quando o fotográfo precisou interromper sua viagem por causa de uma tempestade de areia.

Contudo, o que mais gostei foi o que o McCurry disse ser a lição aprendida com essa experiência:

"Você não pode ficar preso no que pensa ser o seu destino. A jornada é tão importante quanto o destino. Você tem que estar preparado e aberto para o que você está vendo ao longo do caminho."

Será que o fotógrafo da National Geographic conhecia o Guimarães Rosa?

No livro Grande Sertão: Veredas, o mineiro afirma que "o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe é no meio da travessia"

Que no meu caminho haja sempre tempestades tão belas quanto as do McCurry!
Que minha travessia seja permeada de poesia e sabedoria, como as veredas do Rosa!
E, o mais importante, que eu tenha olhos pra ver e sensibilidade pra sentir a beleza, a poesia e a sabedoria!!!


Ah, se você gostou da foto, veja outras, clicando no link abaixo:

sexta-feira, 2 de março de 2012

Todos os dias são meus

Hoje meu trabalho exigiu o extremo sacrifício de ler Fernando Pessoa...
Pro "sacrifício" valer a pena, compartilho com vocês um pouco da genialidade desse poeta:

"Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas - a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra todos os dias são meus."



(Fernando Pessoa/Alberto Caeiro; Poemas Inconjuntos; escrito entre 1913-15; publicado em Atena nº 5, Fevereiro de 1925.)

PS: Não pude deixar de pensar no que ele diria desses tempos de super-exposição digital da intimidade...